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Hoje é o dia de conscientização da síndrome de Asperger, devido ao médico que publicou suas descobertas em 1944. Um trecho do livro GENTE ASPERGER diz:

“1906 – Nascimento do médico pediatra Hans Asperger (1906–1980) em 18 de fevereiro, em Viena, Áustria, data em que é lembrada a síndrome de Asperger. […]

1932  – Neste ano, Hans Asperger já se ocupava dos meninos com traços de autismo. Desde 1930, ele trabalhava em uma clínica infantil e tinha como seu mentor Irwin Lazar, médico preocupado com crianças traumatizadas pela I Guerra Mundial. Asperger sofreu grande influência de seu mentor e de Franz Hamburger. Eram tempos muito difíceis, em que as bases do nazismo estavam sendo plantadas desde antes de 1930 e o regime nazista se iniciou na Alemanha, oficialmente, em 1933. Sabe-se, com farta literatura a respeito, que Hans Asperger não era nazista, apenas o era o seu superior, Franz Hamburger, o qual, por duas vezes, impediu que Hans fosse levado pela Gestapo em razão de seu trabalho. [segue…]”

  Trechos do livro GENTE ASPERGER (no Histórico), Ana P.

Conscientização significa, entre outras coisas, desfazer alguns enganos:

Primeiro, as pessoas aspergers não “desapareceram”! Continuam referidas na letra F-84.5 do CID-10, manual da OMS – Organização MUNDIAL da Saúde, adotado no Brasil. Nada temos a ver com o DSM, publicado por uma associação de psiquiatras americanos (veja, não e de todos os profissionais, é de psiquiatras; não é mundial, é americana). Além disso, esses manuais são bastante resumidos e não dizem tudo o que uma pessoa apresenta – não lista os inúmeros traços possíveis). O médico, psicólogo ou outro profissional precisa conhecer muito mais que isso e saber identificar tantas características que os manuais não dizem. Um manual é apenas um ponto de referência para alguns critérios ditos comuns (e nem sempre).

Segundo, as pessoas aspergers e outras com diferentes graus no espectro do autismo podem ser identificadas não só por suas limitações mas também por suas qualidades potenciais – semelhantes e diferentes em cada um. Avaliações apenas dos “déficits” e avaliações em uma única consulta são incompletas e podem levar a erros de diagnóstico.

Terceiro, “diagnóstico não é sentença”, pois, por si só, não determina o destino de um asperger ou autista, como “não é um diploma” e “não é um status” (no livro GENTE ASPERGER, onde há a explicação ampliada). O objetivo do diagnóstico é mostrar um caminho para possíveis tratamentos e orientações. Imagine cinco  tipos de pessoas dentro do mesmo espectro, não do autismo (há inúmeros espectros!) mas, por exemplo, na questão motora: uma não mexe o corpo inteiro; outra não mexe os membros inferiores; outra só se locomove com o auxílio de muletas, outras com andador; outras usam uma bengala, ou até não usam nada, mas têm problemas sérios de deambulação e não podem caminhar muito nem subir escadas. Cada uma tem uma necessidade e, para cada uma, o tratamento será relativamente distinto. É para isso que se deve ter um diagnóstico preciso e rico em detalhes: para direcionar a conduta a seguir, conforme o caso.

Quarto, embora a lista não termine aqui, fazer comparações entre graus de autismo, principalmente ressentidas ou maliciosas, é um atraso de vida e não beneficia ninguém. Todos, autistas e aspergers, crianças e adultos, são uma família só dentro do espectro! Aspergers se sentem, sim, em conexão com os demais e identificam-se com eles, mesmo que não se manifestem.

Por fim, se você pertence à “comunidade do autismo”, faça contato e dê apoio aos aspergers, inclusive adultos. Não os exclua de sua lista de interesses e de convivência. Eles podem ensinar muito sobre seus pares (aspergers e autistas, crianças e adolescentes), assim como é bom para eles trocar ideias e aprender com você.
A tão falada inclusão começa “em casa”. O espectro do autismo também é a nossa casa. Hoje, 18 de fevereiro, ajude-nos a estar no mundo.  Juntos, chegaremos mais longe.

Ana Parreira
Autora de “Tango Para os Lobos – Cantos proibidos de uma Aspie” – e de
“Gente Asperger” – ambos somente encontrados por e-mail.
E-mail:  villa.aspie@gmail.com

Escrito a pedido e com permissão especial de publicação para Carol Francisca  no Facebook.

Uma amiga, lendo um artigo em inglês sobre abusos, perguntou-me o que é GASLIGHTING. Em princípio, eu respondi que ele está explicado no meu livro GENTE ASPERGER. Depois, pensei em publicar aqui este trecho do livro, para ajudar a esclarecer um tipo de abuso que ocorre muito com aspergers, e também com qualquer pessoa mais tímida, mais delicada ou vulnerável, e causa grandes prejuízos emocionais.
Conheço bem este tipo de manobra porque já fui muitas vezes vítima dela, porém é tão comum que as pessoas nem percebem. Quando você sabe o que é, então, pode ficar mais alerta. Cuide de si. A vida é uma luta!, como dizia a minha assistente doméstica Clarice. E saber de abusos nunca é demais.
Leia, pense, imagine e aprenda para sempre. O trecho de GENTE ASPERGER, portanto, segue abaixo:

Indução à desorientação (gaslighting)
Gaslighting é uma forma de abuso emocional não muito conhecida entre nós enquanto teoria, mas muito praticada. Como não há correspondente – creio – em português, resolvi chamar a essa prática de abuso, muito comum, por sinal, de indução à desorientação.
No original, gaslighting traz a ideia de “aumentar ou diminuir a luz de um lampião”.
É a habilidade intencional de alterar a percepção de uma pessoa usando o chiaro-oscuro, luz e sombra, como um cenografista ilumina ou escurece um cenário, criando uma ilusão. O abusador deseja realçar ou ocultar pontos que levam a vítima a ficar desorientada, ficar em dúvida sobre o próprio raciocínio, sua percepção ou sua memória. Por meio de repetidas instruções falsas, e de falsas evidências plantadas na cena, a vítima é levada a crer que se engana, pois ela observa uma coisa e o abusador diz que é outra. Em alguns casos, o abusador monta cenas para fazer a outra pessoa pensar que tem alucinações. Em outros casos, pode evoluir também para a violência física – em geral, violência doméstica – pois são pessoas que convivem de perto.
O alvo (alvo, no início), deve ser convencido de que é louco, incorreto, inadequado, desastrado, incapaz. A intenção é fazer com que a vítima (agora já não mais um alvo) duvide de si mesma e de sua sanidade.
A expressão “gaslighting” vem de uma peça de teatro que deu origem ao filme Gaslight, em 1944, em que o marido tentava convencer a esposa de que ela não está em seu juízo perfeito. Ocorre, por exemplo, quando um manipulador deseja fazer com que alguém de seu convívio seja convencido a aceitar internação, para depois tornar a pessoa declarada incapaz e se apossar de seus bens. Mas este é apenas um exemplo. Outro pode ser o de um patrão que repreende de tal modo um empregado, que este (ou esta) se mantenha sempre tentando corrigir o seu “erro” e, assim, contentá-lo mais e mais. Mulheres – principalmente mulheres aspies – são duas vezes mais vítimas do que homens.
Entretanto, qualquer pessoa abusiva pode tentar induzir alguém a ficar desorientado. Ao invés de envergonhar, isso diverte o abusador – e, como um abuso nunca satisfaz, ele tende a crescer e a se tornar cada vez mais frequente. Desorientando a vítima, o abusador visa algum tipo de lucro: ou interná-la para ficar com os seus bens, ou fazer com que ela se esforce cada mais em servi-lo ou em fazer suas vontades, ou até mesmo, por exemplo.
Aspergers precisam saber que isso é comum (mas não é normal, nem certo) e aprender a reconhecer essa prática para evitar cair em uma relação abusiva, inclusive com amigos. Os raros casos que podem ocorrer sem intenção, o que ainda não deixa de ser um tipo de instrução enganosa, muitas pessoas lhes dizem: Você está vendo coisas. Deixe de paranoias, deixe de exageros.
A própria forma de lançar um spot negativo sobre o asperger, por exemplo, a partir da Teoria da Mente e de outras teorias, vista sob certa ótica, pode ser interpretada como gaslighting, já que dá ao asperger uma imagem muitas vezes falsa de si mesmo.”

Se você aprendeu mais uma forma de entender essa manobra no convívio social, tem muito mais em GENTE ASPERGER.
Nosso livro não está em livrarias e o estoque, limitado, já está pequeno. GENTE ASPERGER é um livro investigativo, fruto de três anos e meio de pesquisa que fiz e de minhas próprias experiências, bem como de casos de pessoas aspergers a quem prestei ajuda ao longo do meu caminho como profissional de psicologia (que por acaso é asperger).
Para ler mais, encomende o livro por e-mail. É simples. Envie um e-mail para VILLA.ASPIE@GMAIL.COM e nós lhe enviamos as instruções de como adquirir.
Um grande abraço da
Ana Parreira
Campinas SP 23 ago 2016

T3

T3

world water

Há muito tempo venho ensaiando acalmar minha consciência e honrar o compromisso de escrever mais assiduamente neste blog, que, afinal, foi aberto com essa intenção. E alguns leitores esperam. Se acabo adiando é pela eterna e “onipremente” situação de sobrevivência. Hoje, porém, além das tarefas de rotina e de uns livros para postar no Correio, nada tenho a fazer agora pela manhã, o nosso Day After, senão esperar que a chuva acalme.

Porque amanheceu e continua chovendo. E a ameaça de a chuva enfiar-se pela casa como um intruso que entra pela chaminé nas construções onde há chaminés, no caso, entrar pelos pontos de luz dos quartos, sala e cozinha, essa ameaça ainda paira no ar. Talvez ocorra à noitinha, sua hora habitual. Feito a  espada de Dâmocles. No meu epitáfio, poderia estar escrito:

“Aquela que viveu a desafiar a espada de Dâmocles.” Ou,

“Aquela para quem a vida foi tudo, menos monótona.”

Chove, pois, desde ontem, embora não seja uma chuva torrencial e ensandecida como a da noite passada.

E aqui faço um parêntesis, originado tempos atrás pela ideia de Primo Levi, em “É Isto um Homem?”, o qual inicia o prefácio dizendo “Por minha sorte, fui deportado para Auschwitz só em 1944…”. Digo:

Por minha sorte, tive a chance de nascer ávida por estudar e conhecer as coisas e, ao mesmo tempo, perder tudo que tinha e me tornar [completamente] vulnerável. Pois estas duas condições, a inclinação para o conhecimento e a pobreza, são imprescindíveis para que alguém possa sentir a plenitude da vida. Bem como para alguém se encontrar e nunca se perder de si mesmo – risco que correm os chamados bem sucedidos. Pelo menos desse mal fui livrada, amém. Não há perdas sem algum ganho.

E essa consciência foi se configurando depois do diagnóstico (sic), que eu sempre chamo de identificação. “A threshold situation“, situação divisora de águas.

E estamos falando de águas. Meu mais novo interesse especial, jamais “restrito”, sempre focado, é o estudo das águas. Hoje, depois do (sic) diagnóstico, aos poucos, fui aprendendo a separar as coisas. Em dias secos, conheço da água tudo que posso, embora o foco principal seja a água que temos de beber. Em tempos de dilúvio, porém, como a noite de ontem, não é hora de pensar: é hora de espalhar os baldes pela casa, secar os aparelhos, acalmar o filho, em pânico no início, pelo quarto alagado e com medo de perder vídeo game, micro e tudo. Por sorte (sempre há uma sorte), não choveu sobre a cama. Por fim, deixar que ele mesmo dê conta do quarto sozinho e, se calhar, ao mesmo tempo dê conta dos dois labradores transitando pela casa, para que ele se fortaleça enfrentando sozinho situações de emergência. Fingindo não estar nem aí, falta de empatia, para lhe dar espaço, fui checar os outros cômodos. Se todas as mães, mesmo mães aspergers, soubessem como isso funciona, experimentariam.

Ao mesmo tempo, tento não pensar. Deixar para  acudir no dia seguinte o meu próprio pânico, que o filho não vê. Por isso foi que deixei, na postagem no facebook sobre a chuva, no final: “We shall overcome, we shall overcome…” [enquanto lutava com as lágrimas, eu cantava por dentro].

A seguir, como diz Fernando Pessoa, em A Tabacaria:

“Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

Acredito que estudar a água seja um ato de rebelião: você não pode com a água mas pode decidir o que fazer quando a água é boa ou ruim, quando ela vem, ou quando está ausente. O fato de inundar a nossa casa foi acidental, como alguém que é pego por uma bala perdida. Diferente de todas as outras, no entanto, ontem mais forte e até parecendo irada, a chuva parecia dizer alguma coisa. Soava como que com uma intenção apocalíptica, redentora, como um bombardeio d´água que, para lavar para sempre alguns, acaba por afogar também inocentes.

A chuva forte se me afigurava também, no seu clímax, como um tirano totalitário. Se bem que maior, pois mesmo os tiranos não podem com as tempestades. Conforme o dia, a chuva tem uma ou várias mensagens. Especialmente ontem à noite, depois de já terem se apresentado as sete pragas e quando a notícia, o vislumbre, de juízo final sacudia o país, ela veio.

As águas da chuva pareciam dizer: Mors tua, vita mea (latim, para os distraídos). Sua morte é a minha vida. Frase bem fresca em minha cabeça pelo fato de estar a decifrar – e decifrar, para os curiosos e livres – é degustar – Racismo de Estado, de Celia Bernardes. Mors tua, vita mea parece ser o título original de sua tese, que deu vez ao livro.

Mors tua, vita mea: Para que eu viva, você precisa desocupar lugar. Fiasco para os tiranos. As águas que caem do céu vociferam tal princípio com muito mais autoridade. Para começar, chover é verbo intransitivo. Não há sujeito, nem nada. A chuva cai sem se importar sobre o quê, ou sobre quem.

O que fazer? Nem por isso ceder à água, enquanto, sem perceber, já temos cedido em demasia aos tiranos. O que fazer é: resistir a ambos. Não aceitar toda a água que vem, só porque aí está.

Hoje, pela manhã, quando ainda chovia (agora o sol finalmente se impôs), tomei uma pequena tigela azul (para confundir e atrair as águas do céu) e a coloquei junto ao portão. Minha revenge é estudar tudo aquilo que tenta nos abater. É não deixar que quebrem o meu espírito.

Pois bem, eu já sabia que o pH da água da chuva é ácido. Não é uma água boa para se beber como alguns acreditam. Nem tudo que vem de cima é puro e bom, mesmo que tenhamos o céu, simbolicamente, como algo unicamente puro e bom. Eu sabia, porém, nunca havia antes conferido in loco o pH da água. Tive o cuidado de colocar a tigela longe dos telhados, dos fios ou mesmo do muro e do portão, onde a água da chuva poderia cair e ricochetear, contaminada, para dentro da tigela. Colhi água direto do céu. Fui à cozinha e medi o seu pH.

Deu uma água de cor esverdeada, não chegando a azul. Em uma escala de zero a sete (ácida), sete (neutra) – e acima de sete (alcalina), a água da chuva deu, quando muito, um, pH de 6,2.

Diferente do inseto, que só enxerga para os lados e não olha para cima ou para baixo, e que morre afogado sem saber de onde veio a água que se abateu sobre ele, é preciso estudar o que nos ocorre. Pelo menos, na maioria das vezes, apesar de algum infortúnio, podemos ter dois prazeres. Um deles é sobreviver. Outro é transcender a mera sobrevivência e transformar em objeto de análise aquilo que tenta nos subjugar.

É assim que podemos dizer que estamos vivos.

 

Ana Parreira – Campinas, SP –  11 de março de 2016

Autora de

Tango Para os Lobos – Cantos proibidos de uma Aspie, e

Gente Asperger

Informações disponíveis de como adquirir – e LER – por e-mail: villa.aspie@gmail.com

São sete horas da manhã e começo o dia, felizmente, pensando na conversa que tive com meu amigo Stephen Shore, ontem à noite. A esta altura, com o sol clareando, e na pressa, tomei um café ainda aquecido da tarde anterior, com um pão na chapa e manteiga Leco, sem sal (coloco sal light, com 60% menos teor de sódio), que fica fora da geladeira apenas o tempo suficiente, pois se liquidifica em cinco minutos sob o calor intenso que tem feito nesta terra de príncipes e princesas. “São todos príncipes se os ouço e me falam”, me lembra Fernando Pessoa. E mais ainda quando não falam, eu diria. Mas que ninguém se sinta endereçado. Essa tendência é menos original, e muito mais comum, do que cada um, com seus botões, imagina. É um vírus disseminado e sem controle, adotado como providencialmente correto.
Também, antes das sete, já havia limpado a mesa do computador, dando batidinhas no teclado, de cabeça para baixo (o teclado, é claro), para retirar as cinzas de cigarro de ontem, quando era muito tarde e fui dormir com a cabeça cheia de borboletas: finalmente, havia confirmado uma suspeita que trazia comigo há anos sobre o que de fato teria ocorrido entre Kanner e Hans Asperger. Também graças às trocas de idéias, por telefone, com minha amiga Inês Dias e sua generosa e silenciosa experiência no universo do autismo.
Stephen é um cara delicado, que não deixa o Facebook quando abro uma janela para falar-lhe, o que por aqui é costume. A bem da verdade, também não padecem desse hábito outros amigos como Adam, Benni, Debra, Gordon, Leo, Michael, Wendy, ou Yvonne – e, infelizmente, estou me esquecendo de alguns. Coloco-os aqui em ordem alfabética, uma das minhas “obsessões” favoritas, e dane-se o gambá com a nossa lista de “impairments”.
O denominador comum: todos estes são Aspergers ou autistas, cada um em um país que não este. Todos são autores de (ótimos) livros e alguns são PhD. Não posso adquirir todos os seus livros. Pergunto a Stephen se ele pode me mandar os livros dele, meio constrangida, pois é um autor e tanto e essas coisas não se pedem. Um de seus livros é justamente Autism For Dummies, em parceria com Linda Rastelli e prefácio de Temple Grandin. Stephen, para minha alegria, promete enviá-los. Combinamos que se o seu editor permitir, serei sua tradutora para o português. Foi-me apresentado por amigos de Fortaleza, que o conhecem pessoalmente, pois Stephen adora vir ao Brasil.
Assim, eu que às vezes não tenho como viajar nem pra Caconde, de algum jeito viajo pra Pasárgada e, com isso, quando assusto, consegui reunir a minha “comunidade autista internacional” e, aos poucos, todos os dias, vou formando uma ideia de como sobreviver no mundo enquanto Asperger, bebendo nas melhores fontes. Sendo que um autor puxa outro.
Eu tinha jurado pra mim mesma que não escreveria um livro “sobre” Aspergers. A produção de livros excelentes, muitos aqui desconhecidos, sobre Asperger e autismo ultrapassou, imagine, a linha do infinito. Mas catarse é catarse. Acabei parando tudo porque algo estava involuntariamente em gestação. Estou escrevendo um livro que é mais ou menos um docudrama. Acho que, no fundo, estou mesmo é procurando responder às minhas próprias perguntas, ao meu próprio espanto, do que deixar respostas e receitas. Então, o livro terá um pouco de tudo.
Para o antecipado olhar crítico de uns, terá muitas histórias que até hoje foram mal contadas, ou nem foram contadas – o que lhes dará um self-service de coisas a contestar. Para desespero de outros, principalmente alguns doutores, terá pitadas de poesia. O que lhes dará momentos de agonia e êxtase, enquanto dizem “Bah!”. Para o leitor curioso, para mães de Aspergers e autistas, terá o meu respeito e, quem sabe, dicas que lhes sejam úteis. Mas, em tudo, meu livro se propõe a ser apenas um ponto de partida. Nem sei se vou dar conta do recado. Sei que Stephen, por exemplo, já o está esperando pra ler. Isso é uma responsabilidade, me assusta.
Mas vou ter que saltar do trampolim, com medo e tudo. O livro fica pronto, talvez, em uns três meses. Desde o ano passado estou escrevendo e há mais de ano colhendo dados e fatos reais, inclusive do nosso cotidiano.
Quem tiver intenção de adquirir o livro para ler, vou fazer uma pré-venda. Nem sei como fazer uma pré-venda. Por isso peço que se você estiver interessado, me mande um e-mail sem falta. Vou deixar seu nome numa pasta e aviso quando estiver pronto. Já tem nome, capa, tudo, tem até Bettlheim, esse execrado, pois eu gosto de puxar o fio da meada de coisas ditas de boca em boca. Quis saber quem, afinal, saiu com essa história de mãe geladeira e descobri que papagaio come milho… Por falar nisso, o livro tem episódios recentes também, alguns de como e por que tipo de gente (principalmente por psicopatas) os Aspergers são perseguidos – e como se defendem. Prato cheio. E pitadas do Oriente. E o que, pergunta um, tem o Oriente a ver com o autismo? Saberá.
Agora são nove e meia da manhã, quando termino este post.
Enfim, quem vai querer? Pode levantar o mouse aqui, mas se for de verdade, mande um e-mail para villa.aspie@gmail.com.
Um abraço
A autora

Como são feitas as novelas?
Há algum tempo não tenho escrito no blog. E nem posso declinar aqui os motivos. Entendi que tudo o que eu tenha a dizer sobre Asperger, sobre autismo e todos os episódios e situações vividos nesse universo deva ser contado de uma vez no livro que estou escrevendo. Espero terminá-lo ainda este ano, se conseguir, porque algumas memórias doem. Outras vezes porque eu demoro no ofício de escrever: penso muito, releio, pesquiso, converso com pessoas. Assim que estou cozinhando esse livro em fogão de lenha: lentamente.
Mas um fato me fez parar hoje e escrever este artigo. Foi a questão da novela Amor à Vida (sic), que veio com a promessa de mostrar a personagem principal como uma pessoa no espectro do autismo.

A novela Amor à Vida
Não assisto à novela, mas fui conferir na Internet alguns capítulos onde Linda aparece, de tantos comentários recebidos ou lidos. Não vejo novelas de maneira geral, já que há mais de dez anos decidi não ver – e nem tenho mais – televisão. Desde então, e como sou cinéfila, assisto a um filme por dia.
Mas a expectativa gerada pela novela, antes de sua estréia, e a minha experiência nos cursos de roteiro dados por pessoal da Globo, que me mostraram como são escritas as novelas, me fizeram buscar contato com a produção. Era uma tentativa desesperada de reverter uma situação nada difícil de prever, ou seja: a novela não iria mostrar uma pessoa autista de verdade. Nem remotamente, em se tratando de “ficção”. A novela não viria para defender a causa do autismo. As demais personagens ao redor da personagem principal não iriam refletir o que é uma família envolvida com um caso de autismo. Pelo menos, eu tentei. Sei que outros também tentaram.

O contato com a Globo
Quem me respondeu foi alguém ligado à produção, que, em tese, teria passado “todas as informações” sobre como é uma pessoa autista. Disse-me que a novela iria mostrar uma moça Asperger. Estranhei (mais do que já havia feito), pois não seria possível que uma única pessoa, um homem, ainda que aparentemente no espectro, saber, afinal, como é uma mulher na condição de Asperger. Se nós, aqui no Brasil, mal conhecemos a síndrome no sexo masculino, que é dita, por enquanto, ser a mais prevalente entre os dois sexos.
A síndrome de Asperger entre as mulheres é ainda tão misteriosa por aqui, que até mesmo nós (eu inclusive), que vivemos a condição de Asperger, sabemos ou temos espaço para explicar como funciona, o que acarreta, em que nos diferenciamos dos Aspergers homens, as nossas dificuldades, os desafios, enfim, o que é ser Asperger no sexo feminino.
Portanto, uma moça com síndrome de Asperger, ou uma moça com autismo clássico, não poderia ser contada por um único consultor – e do sexo masculino. Mas, enfim, foi com isso que a produção da Globo se contentou, apesar dos infinitos recursos que tem, no sentido de fazer um laboratório com a atriz que faria o papel de Linda. Que, com o desenrolar da novela, começou a imitar… a Carley (menina autista).

Asperger ou autista?
Logo nos primeiros capítulos, vendo algumas cenas sem sentido, que já começavam a confundir o telespectador, fosse ele de alguma forma ligado ou não ao autismo, fiz novo contato com a mesma criatura, quando perguntei: “Mas, afinal, a Linda é uma autista, uma Asperger, ou o quê?”
A resposta que eu obtive, uma resposta resignada e parecendo bastante afinada com a produção, posição inusitada para um Asperger (que normalmente não aceita situações ambíguas), foi:
“Depende. Ela está entre autista grave e Asperger. (sic) A produção é que vai decidir. (sic!) Conforme o rumo que tomar a audiência da novela, eles vão modificando a personagem.” (sic!!!)
O mesmo que o homem do tempo dizer: O tempo? Depende. Pode vir uma grande tempestade ou podemos ter um tempo estável. Conforme as pessoas quiserem que seja.
Claro. Parte da confusão começa neste ponto. A Rede Globo não iria se preocupar em dar capacitação ao pessoal envolvido com a novela, desde atores até o pessoal da produção. Eu disse capacitação, e não pinceladas. Mas a novela ainda tem outros componentes, que fazem dela o que ela é: um prato de lagosta misturada com macarrão e rabanada. Uma história sem pé nem cabeça, em geral, a partir do décimo capítulo (quando o roteirista começa a se perder).

A revolta dos pais de autistas e dos Aspergers e autistas adultos
Todos se manifestaram. Alguns, dizendo que valia a pena falar de autismo, ainda que mostrassem tudo errado. Outros entenderam que falar de autismo da forma tão caótica, contraditória e deturpada, incluindo-se aí as reações da família de Linda, as “sessões de terapia”, o namorado salvador, tudo isso contribuía de forma negativa para que o autismo fosse mais desconhecido e mal interpretado do que já é.
Assim, vejo muita gente desapontada, e com justa razão, com os rumos que a personagem Linda tomou, bem como os demais personagens em torno de Linda e da questão do autismo.
Desapontados com justa razão, porém com a expectativa muito alta, se assim se pode dizer, enganados pela propaganda da novela e por não conhecer de roteiros, que, afinal, não é obrigação de nenhum telespectador.
Tentei avisar. Previa a angústia que se seguiria quando a novela fosse apresentada. Dizem (e o engano continua) que Aspergers não têm empatia, quando é bem o contrário. Senti, logo no início, que não queria ver tantas pessoas e tantos amigos grudados na telinha, iludidos, esperando “o milagre”.
Postei em vários grupos do Facebook o mesmo comentário, que poucos leram ou consideraram: ali eu reproduzi a conversa que tive com o consultor contratado pela Globo. Mas meu aviso não fez sequer cócegas no pensamento de alguém.

Como é feita a novela?
Então, imaginando que prestem alguma atenção a esta postagem e que tenham lido até aqui, vou explicar como é feita uma novela. De maneira bem geral, na Globo, funciona assim:
1. Primeira etapa. O tema da novela é escolhido em função da audiência das novelas anteriores. A Globo perdeu pontos? Vamos ver o que podemos trazer para captar a atenção de mais telespectadores. Aí, alguém surge com um tema interessante. O autismo, por exemplo. Algo que está começando a atrair os olhos das pessoas somente agora, mas enfim, agora. Vamos de autismo, então! Quantas pessoas a mídia diz que estão envolvidas? Dois milhões? Que ótimo. Um número bem significativo para se começar uma história.
2. Segunda etapa. Na Globo, se isso mudou eu não sei, mas toda novela é “baseada” em alguma das tramas de Shakespeare e deve ter seus principais componentes como personagens principais. Romeu e Julieta, por exemplo.
Desnecessário dizer que ninguém ali leu Shakespeare – e nem é o caso. Basta que saibam o resumo do resumo do resumo da história – e isso a Globo tem nos registros de roteiros. Que, basicamente, contém um herói, um vilão, um santo, um “atrapalhador”, um grupo de pessoas e um local onde as coisas se passam.
Além dos personagens principais, há os personagens secundários, que em geral são estereótipos (personagens que não têm conflito – são sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, chova ou faça sol na história).
Há em seguida os figurantes, que passam no fundo, o garçom que serve um café, um pé aparecendo, pessoas andando na rua, ao longe, por exemplo).
3. Terceira etapa. Há dois ou três personagens principais, assim como há outras histórias correm em paralelo para dar movimento à história, e eles são divididos em núcleos. Há, portanto, o “núcleo da Linda”: a própria Linda e pessoas ligadas mais diretamente a ela. Há outros núcleos e neste caso, como não vejo a novela, não saberei nomear. Mas, suponhamos, pode haver um núcleo do namorado da Linda: a família e os amigos dele, a casa dele etc. E outros ainda.
4. Quarta etapa. O roteirista encarregado, em geral, possui uma equipe. Ele não daria conta de escrever sozinho o dia-a-dia de todos os personagens. Assim, cada equipe, em geral de roteiristas novatos, e sem muita experiência de vida, pela pouca idade, fica encarregada de desenvolver um núcleo. Isso quer dizer, escrever um mini-roteiro por dia e tudo muito rápido, semanas antes daquela cena ir ao ar, pois os atores precisam ensaiar ou pelo menos ler o roteiro.
5. Etapa cinco. O caos completo. Imagine cada grupo escrevendo, em separado, a história de um núcleo, sem conexão uma história com a outra. Bem como a história de cada personagem principal, sem o tempo devido para os roteiristas anônimos (só o principal aparece) se comunicarem entre si como deveriam. Em poucos capítulos, a novela se transformou numa Torre de Babel, com personagens se chocando uns com os outros na história. Por exemplo, cenas da terapia de Linda precisam ser enxugadas, pois, suponhamos, o ator que faz o terapeuta teve uma indisposição e não pode gravar naquela semana. Ou porque outros personagens precisam aparecer mais, se ainda não gravaram. A história de Carley surge na mídia e alguém se lembra de “aproveitar o gancho” e escrever uma cena para Linda. Pronto, uma Asperger vira uma autista. No dia seguinte, ela é Asperger outra vez, se outra situação parecida ocorreu.
Enfim, considero a novela, tal como é feita, de improviso, como um compasso com seu eixo fincado de maneira frouxa. Sem poder traçar um círculo perfeito, traduzindo, sem poder delinear um personagem coerente.
A questão do autismo, para a Globo? Vai bem, obrigado. Pois todo mundo, do universo autista ou fora dele, contra ou a favor, está como a Globo queria: com os olhos grudados na telinha, seja para aplaudir, para “aprender”, para se reconhecer na história ou não, ou simplesmente porque é hora da novela – e ela está falando de autismo.
Portanto, tudo o que a emissora quer é a sua audiência.
Considero isso o mais sórdido dos negócios: aquele que lida, de maneira leviana e inconsequente, com a Esperança das pessoas.
*******************

Agora, cá entre nós, os únicos interessados. Nós precisamos ir muito além de “falar de autismo”.
Também precisamos, com urgência, falar com os autistas.
Nada sobre nós sem nós. Os autistas agradecem.
Essa novela, para ter sido minimamente verossímil, com mais dados de realidade, teria que ser feita, dirigida, produzida e alimentada por diferentes pessoas autistas e com atores autistas no núcleo central.
E pela qualidade que teria, então, a novela, os autistas empregados bem poderiam estar ganhando remuneração dobrada.
Nem mais, nem menos.
Mas isso, aqui, nos tempos de hoje, talvez seja o mesmo que falar da ficção da ficção.

Ana Parreira
Campinas, 29 de janeiro de 2014
Contato: villa.aspie@gmail.com

Para saber mais, veja um artigo muito bom de Cyntia Beltrão:
http://femmaterna.com.br/autismo-protecao-e-autonomia/

Tenho para mim que um ego assustadoramente grande impede aquele que o possui de ver a real grandeza de si mesmo enquanto pessoa. Do mesmo modo que um ego demasiadamente pequeno também ofusca a real visão de seu possuidor.
Nem o que tem enorme ego nem o que o tem diminuto podem gozar de autoestima.
A autoestima não é ter um ego gigante, tolo e estouvado, mas sim, é o equilíbrio entre grandeza e humildade na medida exata: somos grandes e somos pequenos – isso é o que nos faz humanos.
O ego inflado nos torna seres meramente emocionais (suponhamos que, a grosso modo, seja assim no espectro neurotípico): assim, tendemos a ter como amigos somente aqueles que nos elogiam e nos adulam (nos manipulam). E nos afastamos, e mesmo nos irritamos, com quem nos tenha verdadeira amizade e nos avise das coisas como elas são, porque não nos quer cegos.
O ego inflado, que poderia ser chamado de Grande Ego, é um dragão voraz, que precisa ser alimentado todos os dias e não se sacia nunca. Ele vê a floresta, é emocional, superficial e apressado.
Por sua vez, o ego diminuto , solapado ou encolhido, o Pequeno Ego, é igualmente prejudicial ao nosso estado de ser. Ele é racional (suponhamos que, a grosso modo, seja assim no espectro autista) e leva em conta minúcias, considera toda e qualquer opinião, sendo às vezes tomado por todas elas. Ele se perde nos detalhes e deixa de ver a floresta, daí a lentidão em tomar decisões e em sobreviver.
Uma pessoa pode se considerar um nada, quando de fato tem valores que desconhece. E isso vale para os egos grandes e pequenos.
Daí ser possível entender que o exercício do autoconhecimento seja árduo, porém possível e necessário. Só ele conduz à autoestima.
Nesse processo, nós sofreremos vários enganos – mesmo assim, precisamos continuar seguindo.
E a autoestima (que inclui, ao mesmo tempo, as nossas grandezas e pequenezas) é a chave, é o Caminho do Meio.

Ana Parreira – (trecho brainstorm de livro em andamento, aberto a críticas de preferência honestas, elegantes e esforçadas)
Nos vemos dia 9 de novembro em São Carlos, no Módulo I do curso Aspergers em Sintonia.
Informações com yonepalma59@gmail.com.

POEMA EM LINHA RETA

Veja aqui o poema original, escrito por Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Veja a história do poeta português e leia outros poemas dele… fico pensando, será que ele era um Asperger?
E, ao final, assista ao vídeo onde Osmar Prado dá um show, recitando o poema que, na novela O Clone, foi adaptado.
Uma vez em mil, as novelas trazem algo magistral como este momento.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.