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Archive for setembro \19\UTC 2013

Veja aqui o poema original, escrito por Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Veja a história do poeta português e leia outros poemas dele… fico pensando, será que ele era um Asperger?
E, ao final, assista ao vídeo onde Osmar Prado dá um show, recitando o poema que, na novela O Clone, foi adaptado.
Uma vez em mil, as novelas trazem algo magistral como este momento.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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SERÁ QUE EU SOU ASPERGER?

DIAGNÓSTICO: A VOLTA PARA CASA

por Ana Parreira

Transpondo um portal
Até um ano atrás, eu não pensava em fazer avaliações para diagnóstico da síndrome de Asperger. Todo meu tempo era ocupado para entender a condição de Asperger em mim mesma, em meu filho e nas pessoas Aspergers que tenho contato, aqui e fora. Era um tempo que eu precisava para me deveras me conhecer e pôr algumas coisas no lugar. Até aí, eu me permitia apenas divulgar o conhecimento da síndrome e do universo Aspie, a fim de que o a sociedade se tornasse um tanto mais aberta para a nossa existência e para o convívio com as pessoas Aspergers.
Como essa descoberta se deu comigo na idade adulta e provocou uma série de transformações em cascata, tudo, então, a partir do diagnóstico confirmado, começou a fazer sentido: tanto as conquistas como os fracassos. De repente, eu deixei de ser apenas uma árvore para, ao mesmo tempo, ver que tipo de árvore eu era, observar as outras árvores em volta e observar a floresta como um todo. Acho que é Brecht quem diz que: “Para entender a floresta é preciso sair de dentro dela.”
Em geral, as pessoas autistas veem as árvores e os neurotípicos veem a floresta. Mas quando acontece uma autodescoberta, passa a ser possível juntar as duas visões: a visão local, ensimesmada, individual – e a visão panorâmica, geral, coletiva.
Então eu senti que, sem perceber, acabava de transpor um portal. Como se fosse a etapa decisiva da individuação de que fala Jung. No alto do portal estava escrita uma palavra: Identidade.
Meu foco de estudos se voltou para essa fase da vida, a fase adulta, e encontrei pessoas nas mesmas condições (Aspergers), cada uma com uma personalidade e com um tipo de vida próprios, e todos com uma mesma sensação: alívio.
Ainda não encontrei um Asperger que se lamentasse por ser Asperger. Ao contrário: todos que conheci demonstram ter integrado essa condição em sua vida, com mais ganhos do que perdas. Todos, que eu digo, são os Aspergers já adultos. Eles têm em comum um sentimento de Aceitação.
Aspergers vêm sendo identificados como tais em número maior do que o esperado. Contando com as crianças e adolescentes no espectro do autismo, pode ser que não sejamos minoria, como hoje se acredita. Encontrei Aspergers desde jovens até oitenta e três anos.
Os mais velhos, em geral, depois do diagnóstico (que eu chamo de identificação), começam a puxar pela memória e encontram pessoas na família, como pais, avós, que já morreram e que também eram Aspergers. Estes experimentam um momento mágico, onde contas são resgatadas e acertos internos são feitos. Quando alguém se conhece a si mesmo, começa a se entender melhor com o mundo e, mesmo com toda turbulência do mundo, ele passa a sentir um razoável bem-estar.
A questão de atender pessoas para avaliação diagnóstica veio aos poucos. As pessoas que me procuram percorrem longas distâncias até chegar aqui, ficam três, quatro dias em um hotel, passam os dias inteiros mergulhadas, na busca de si mesmas, ajudando na sua própria “escavação”, sem demonstrar cansaço. É um trabalho em conjunto. Normalmente, eles já procuraram outros lugares. Eles não vêm em busca de um laudo, mas vêm em busca de confirmação para algo que já descobriram e querem ter certeza:
“Será que eu sou mesmo um Asperger?”
É como se fossem peregrinos, que chegam de uma longa jornada e perguntam:
“Será que eu estou, finalmente, no caminho de casa?”

A volta para casa
Voltar para casa é encontrar-se consigo mesmo.
Quando nascemos, estamos de bem conosco. Somos o que somos – e por isso não temos conflitos nem guerras internas.
Aos poucos, porém, percebemos que, no lugar em que acabamos de chegar, ser o que somos não basta. Então experimentamos a vida: olhares curiosos ou desatentos, gestos hostis, falas bizarras, ordens sem nexo, costumes que não nos confortam, acordos que não faríamos, ouvidos que não nos ouvem, costas voltadas, em vez de mãos estendidas.
E assim, para sobreviver, vamos, aos poucos, nos afastando de nós mesmos na tentativa de ser um Outro, qualquer Outro que seja, desde que agrade ou apazigue os que nos rodeiam.
Somos vistos com estranheza por olhos mais estranhos ainda – olhos que tudo perscrutam, mas que não nos enxergam. Para não sofrer enxovalhos, vestimos a capa cinza que nos dão, dizendo:
“Este deve ser o seu traje, porque é um traje mais adequado”.
E nos tornamos cinzentos, conformes, para satisfazer os outros à nossa volta.
E quando, enfim, nos deixam a sós em nosso quarto, regalia que nos permitem neste inusitado embate, logo tiramos a capa, nos sentamos ao nosso modo, sentimos a nossa pele, balançamos as mãos e os braços querendo voar e encontrar o nosso eu dividido.
Por sorte, possuímos algum objeto, uma pedra, um talismã, uma foto, uma lasca de madeira em que lançamos nossa energia represada – e consagramos esse objeto como sendo a nossa caixa de memórias, a nossa energia vital. E carregamos esse objeto para todo lado, ou o guardamos de olhares intrusos, num canto só nosso, para não nos perdermos de vez.
Por isso, quando me dizem, com olhar esperançoso, “Eu só queria saber se sou mesmo Asperger, isso é tudo.” – eu sei de que estão falando. Sim, isso é TUDO.
O diagnóstico é, ou pode ser, um momento de redenção. O grande reencontro. O reinício de tudo, agora por outros caminhos.
É o momento em que todas as ciências de fato, todas as ciências autoproclamadas e todas as regras sociais não são suficientes para nos impedir de recitar poemas, sim, poemas, como, por exemplo, o Poema Em Linha Reta, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). Talvez, ele mesmo um Asperger.
É a partir daí que colocamos uma placa na porta de casa, dizendo a frase de Eleanor Roosevelt:
“Ninguém pode me fazer me sentir miserável sem a minha permissão”.
Por isso mesmo, uma avaliação diagnóstica deve receber muita atenção e cuidado.

A chegada
O que é preciso

A partir da disposição de se deixar avaliar para se descobrir ou não como um Asperger, é preciso, em primeiro lugar, andar devagar e permitir que o rio corra sozinho.
É preciso não ter pressa. Para se avaliar uma vida inteira e o que mais possa vir pela frente, não bastam duas horas. Não bastam os “sintomas”. E nem as “dificuldades”. Não basta resumir tudo a uma tríade de limitações descrita nos manuais médicos.
É preciso levar em conta o que já foi superado e integrar a pessoa em seu contexto, ah, o contexto. Toda uma história de vida.
É preciso desconstruir essa história de vida, olhar com uma lupa cada detalhe, cada momento, cada passagem, puxar o fio da meada, eliminar outras possibilidades, ir aos livros raros, ir e voltar, é preciso ouvir, ouvir e falar, é preciso serenidade, porque vamos evocar, nesse trajeto, os nossos deuses e os nossos demônios. Encarar as nossas habilidades e os nossos limites.
É preciso listar as perdas, avaliar os estragos, sem deixar de reconhecer as vitórias alcançadas.
É preciso o confronto consigo mesmo e, para isso, é preciso Coragem. Porque esse confronto é, de longe, a maior batalha que um homem tem a travar.
É preciso, a um só tempo, guiar e se deixar guiar, ouvir e ser ouvido, entrar por terrenos nunca explorados, é preciso exigir e aceitar um Olhar cuidadoso, não um Olhar distante, vago, casual.
É importante deixar que outros participem, trazer uma esposa, uma mãe, um irmão, um amigo ou um colega de trabalho, caso o trabalho exista. É preciso deixar que eles falem.
É preciso ouvir as dores, físicas ou existenciais, é preciso se valer de exames médicos, de questionários, é preciso investigar os sentimentos vários e perceber a sua presença no mundo, se até agora foi dolorida ou teve momentos bons.
Idealmente, é preciso sair à rua com o seu avaliador, ir a uma loja, escolher uma comida, parar para um café e se deixar ser naturalmente observado.
É preciso falar das trocas, dos cheiros, do banco de escola, dos interesses, dos sonhos perdidos, do tecido que arranha, das luzes, dos sons, dos gestos e da ausência deles. Tudo isso é o contexto.
É preciso traçar a planta de uma casa que foi construída sem que até hoje essa planta estivesse à mão. Entrar pelas janelas, abrir as portas dos quartos, inclusive a porta que dá para o quarto escuro.
O diagnóstico é o “Habite-se”. É o aval para encontrar e habitar o seu eu verdadeiro.
Essa é uma jornada que não se faz sozinho, embora também seja possível.
Então, e só então, se o diagnóstico se confirma, vale a pena celebrar: ser Asperger não é uma tragédia nem é uma condição de que se orgulhe simplesmente.
Ninguém que se arvore em dar diagnóstico a um(a) asperger pode fazê-lo com precisão se não aprender a pensar como um. A tríade de “impairments” é pouco para nos definir. As “dificuldades” ou “limitações” não nos definem. Uma pessoa asperger é muito mais que isso. É preciso avaliar as qualidades especiais também. O caminho para se avaliar um asperger passa pela empatia, pela curiosidade solidária (não invasiva) e pelo respeito.
Por princípio, eu não respondo questionários para teses, se me pedem – e já aconteceu duas vezes. Fico confusa porque não sei como responder a pessoas que abordam aspergers com essa intenção. De pronto, vê-se um distanciamento. E à distância não se pode conhecer nada ou ninguém. Pessoas que veem um asperger como um “paciente” nunca saberão quem é de fato um asperger, se não partirem do ponto de que aspergers são, acima de tudo, seus iguais. Às vezes, com alguns pontos de evolução à frente do seu tempo. Difícil para uma pessoa típica entender isso, mas não impossível.
E diagnóstico não é sentença. É o reconhecimento de um estado de ser – e é a oportunidade para um recomeço.
Nessa empreitada, tenho encontrado pessoas que, quando confirmada a sua condição de asperger, se emocionam e choram.
Elas só queriam saber, afinal, quem são.

Ana P.
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Quote:
Homem, conhece-te a ti mesmo.
Sócrates

Música para o texto:
TOCANDO EM FRENTE
Almir Sater

Acompanhe o próximo post a ser publicado, em continuação deste:
TODOS OS DIAS SÃO MEUS (em breve)

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