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Archive for janeiro \29\UTC 2014

COMO SÃO FEITAS AS NOVELAS?

Como são feitas as novelas?
Há algum tempo não tenho escrito no blog. E nem posso declinar aqui os motivos. Entendi que tudo o que eu tenha a dizer sobre Asperger, sobre autismo e todos os episódios e situações vividos nesse universo deva ser contado de uma vez no livro que estou escrevendo. Espero terminá-lo ainda este ano, se conseguir, porque algumas memórias doem. Outras vezes porque eu demoro no ofício de escrever: penso muito, releio, pesquiso, converso com pessoas. Assim que estou cozinhando esse livro em fogão de lenha: lentamente.
Mas um fato me fez parar hoje e escrever este artigo. Foi a questão da novela Amor à Vida (sic), que veio com a promessa de mostrar a personagem principal como uma pessoa no espectro do autismo.

A novela Amor à Vida
Não assisto à novela, mas fui conferir na Internet alguns capítulos onde Linda aparece, de tantos comentários recebidos ou lidos. Não vejo novelas de maneira geral, já que há mais de dez anos decidi não ver – e nem tenho mais – televisão. Desde então, e como sou cinéfila, assisto a um filme por dia.
Mas a expectativa gerada pela novela, antes de sua estréia, e a minha experiência nos cursos de roteiro dados por pessoal da Globo, que me mostraram como são escritas as novelas, me fizeram buscar contato com a produção. Era uma tentativa desesperada de reverter uma situação nada difícil de prever, ou seja: a novela não iria mostrar uma pessoa autista de verdade. Nem remotamente, em se tratando de “ficção”. A novela não viria para defender a causa do autismo. As demais personagens ao redor da personagem principal não iriam refletir o que é uma família envolvida com um caso de autismo. Pelo menos, eu tentei. Sei que outros também tentaram.

O contato com a Globo
Quem me respondeu foi alguém ligado à produção, que, em tese, teria passado “todas as informações” sobre como é uma pessoa autista. Disse-me que a novela iria mostrar uma moça Asperger. Estranhei (mais do que já havia feito), pois não seria possível que uma única pessoa, um homem, ainda que aparentemente no espectro, saber, afinal, como é uma mulher na condição de Asperger. Se nós, aqui no Brasil, mal conhecemos a síndrome no sexo masculino, que é dita, por enquanto, ser a mais prevalente entre os dois sexos.
A síndrome de Asperger entre as mulheres é ainda tão misteriosa por aqui, que até mesmo nós (eu inclusive), que vivemos a condição de Asperger, sabemos ou temos espaço para explicar como funciona, o que acarreta, em que nos diferenciamos dos Aspergers homens, as nossas dificuldades, os desafios, enfim, o que é ser Asperger no sexo feminino.
Portanto, uma moça com síndrome de Asperger, ou uma moça com autismo clássico, não poderia ser contada por um único consultor – e do sexo masculino. Mas, enfim, foi com isso que a produção da Globo se contentou, apesar dos infinitos recursos que tem, no sentido de fazer um laboratório com a atriz que faria o papel de Linda. Que, com o desenrolar da novela, começou a imitar… a Carley (menina autista).

Asperger ou autista?
Logo nos primeiros capítulos, vendo algumas cenas sem sentido, que já começavam a confundir o telespectador, fosse ele de alguma forma ligado ou não ao autismo, fiz novo contato com a mesma criatura, quando perguntei: “Mas, afinal, a Linda é uma autista, uma Asperger, ou o quê?”
A resposta que eu obtive, uma resposta resignada e parecendo bastante afinada com a produção, posição inusitada para um Asperger (que normalmente não aceita situações ambíguas), foi:
“Depende. Ela está entre autista grave e Asperger. (sic) A produção é que vai decidir. (sic!) Conforme o rumo que tomar a audiência da novela, eles vão modificando a personagem.” (sic!!!)
O mesmo que o homem do tempo dizer: O tempo? Depende. Pode vir uma grande tempestade ou podemos ter um tempo estável. Conforme as pessoas quiserem que seja.
Claro. Parte da confusão começa neste ponto. A Rede Globo não iria se preocupar em dar capacitação ao pessoal envolvido com a novela, desde atores até o pessoal da produção. Eu disse capacitação, e não pinceladas. Mas a novela ainda tem outros componentes, que fazem dela o que ela é: um prato de lagosta misturada com macarrão e rabanada. Uma história sem pé nem cabeça, em geral, a partir do décimo capítulo (quando o roteirista começa a se perder).

A revolta dos pais de autistas e dos Aspergers e autistas adultos
Todos se manifestaram. Alguns, dizendo que valia a pena falar de autismo, ainda que mostrassem tudo errado. Outros entenderam que falar de autismo da forma tão caótica, contraditória e deturpada, incluindo-se aí as reações da família de Linda, as “sessões de terapia”, o namorado salvador, tudo isso contribuía de forma negativa para que o autismo fosse mais desconhecido e mal interpretado do que já é.
Assim, vejo muita gente desapontada, e com justa razão, com os rumos que a personagem Linda tomou, bem como os demais personagens em torno de Linda e da questão do autismo.
Desapontados com justa razão, porém com a expectativa muito alta, se assim se pode dizer, enganados pela propaganda da novela e por não conhecer de roteiros, que, afinal, não é obrigação de nenhum telespectador.
Tentei avisar. Previa a angústia que se seguiria quando a novela fosse apresentada. Dizem (e o engano continua) que Aspergers não têm empatia, quando é bem o contrário. Senti, logo no início, que não queria ver tantas pessoas e tantos amigos grudados na telinha, iludidos, esperando “o milagre”.
Postei em vários grupos do Facebook o mesmo comentário, que poucos leram ou consideraram: ali eu reproduzi a conversa que tive com o consultor contratado pela Globo. Mas meu aviso não fez sequer cócegas no pensamento de alguém.

Como é feita a novela?
Então, imaginando que prestem alguma atenção a esta postagem e que tenham lido até aqui, vou explicar como é feita uma novela. De maneira bem geral, na Globo, funciona assim:
1. Primeira etapa. O tema da novela é escolhido em função da audiência das novelas anteriores. A Globo perdeu pontos? Vamos ver o que podemos trazer para captar a atenção de mais telespectadores. Aí, alguém surge com um tema interessante. O autismo, por exemplo. Algo que está começando a atrair os olhos das pessoas somente agora, mas enfim, agora. Vamos de autismo, então! Quantas pessoas a mídia diz que estão envolvidas? Dois milhões? Que ótimo. Um número bem significativo para se começar uma história.
2. Segunda etapa. Na Globo, se isso mudou eu não sei, mas toda novela é “baseada” em alguma das tramas de Shakespeare e deve ter seus principais componentes como personagens principais. Romeu e Julieta, por exemplo.
Desnecessário dizer que ninguém ali leu Shakespeare – e nem é o caso. Basta que saibam o resumo do resumo do resumo da história – e isso a Globo tem nos registros de roteiros. Que, basicamente, contém um herói, um vilão, um santo, um “atrapalhador”, um grupo de pessoas e um local onde as coisas se passam.
Além dos personagens principais, há os personagens secundários, que em geral são estereótipos (personagens que não têm conflito – são sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, chova ou faça sol na história).
Há em seguida os figurantes, que passam no fundo, o garçom que serve um café, um pé aparecendo, pessoas andando na rua, ao longe, por exemplo).
3. Terceira etapa. Há dois ou três personagens principais, assim como há outras histórias correm em paralelo para dar movimento à história, e eles são divididos em núcleos. Há, portanto, o “núcleo da Linda”: a própria Linda e pessoas ligadas mais diretamente a ela. Há outros núcleos e neste caso, como não vejo a novela, não saberei nomear. Mas, suponhamos, pode haver um núcleo do namorado da Linda: a família e os amigos dele, a casa dele etc. E outros ainda.
4. Quarta etapa. O roteirista encarregado, em geral, possui uma equipe. Ele não daria conta de escrever sozinho o dia-a-dia de todos os personagens. Assim, cada equipe, em geral de roteiristas novatos, e sem muita experiência de vida, pela pouca idade, fica encarregada de desenvolver um núcleo. Isso quer dizer, escrever um mini-roteiro por dia e tudo muito rápido, semanas antes daquela cena ir ao ar, pois os atores precisam ensaiar ou pelo menos ler o roteiro.
5. Etapa cinco. O caos completo. Imagine cada grupo escrevendo, em separado, a história de um núcleo, sem conexão uma história com a outra. Bem como a história de cada personagem principal, sem o tempo devido para os roteiristas anônimos (só o principal aparece) se comunicarem entre si como deveriam. Em poucos capítulos, a novela se transformou numa Torre de Babel, com personagens se chocando uns com os outros na história. Por exemplo, cenas da terapia de Linda precisam ser enxugadas, pois, suponhamos, o ator que faz o terapeuta teve uma indisposição e não pode gravar naquela semana. Ou porque outros personagens precisam aparecer mais, se ainda não gravaram. A história de Carley surge na mídia e alguém se lembra de “aproveitar o gancho” e escrever uma cena para Linda. Pronto, uma Asperger vira uma autista. No dia seguinte, ela é Asperger outra vez, se outra situação parecida ocorreu.
Enfim, considero a novela, tal como é feita, de improviso, como um compasso com seu eixo fincado de maneira frouxa. Sem poder traçar um círculo perfeito, traduzindo, sem poder delinear um personagem coerente.
A questão do autismo, para a Globo? Vai bem, obrigado. Pois todo mundo, do universo autista ou fora dele, contra ou a favor, está como a Globo queria: com os olhos grudados na telinha, seja para aplaudir, para “aprender”, para se reconhecer na história ou não, ou simplesmente porque é hora da novela – e ela está falando de autismo.
Portanto, tudo o que a emissora quer é a sua audiência.
Considero isso o mais sórdido dos negócios: aquele que lida, de maneira leviana e inconsequente, com a Esperança das pessoas.
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Agora, cá entre nós, os únicos interessados. Nós precisamos ir muito além de “falar de autismo”.
Também precisamos, com urgência, falar com os autistas.
Nada sobre nós sem nós. Os autistas agradecem.
Essa novela, para ter sido minimamente verossímil, com mais dados de realidade, teria que ser feita, dirigida, produzida e alimentada por diferentes pessoas autistas e com atores autistas no núcleo central.
E pela qualidade que teria, então, a novela, os autistas empregados bem poderiam estar ganhando remuneração dobrada.
Nem mais, nem menos.
Mas isso, aqui, nos tempos de hoje, talvez seja o mesmo que falar da ficção da ficção.

Ana Parreira
Campinas, 29 de janeiro de 2014
Contato: villa.aspie@gmail.com

Para saber mais, veja um artigo muito bom de Cyntia Beltrão:
http://femmaterna.com.br/autismo-protecao-e-autonomia/

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