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Archive for the ‘EM TEMPO’ Category

world water

Há muito tempo venho ensaiando acalmar minha consciência e honrar o compromisso de escrever mais assiduamente neste blog, que, afinal, foi aberto com essa intenção. E alguns leitores esperam. Se acabo adiando é pela eterna e “onipremente” situação de sobrevivência. Hoje, porém, além das tarefas de rotina e de uns livros para postar no Correio, nada tenho a fazer agora pela manhã, o nosso Day After, senão esperar que a chuva acalme.

Porque amanheceu e continua chovendo. E a ameaça de a chuva enfiar-se pela casa como um intruso que entra pela chaminé nas construções onde há chaminés, no caso, entrar pelos pontos de luz dos quartos, sala e cozinha, essa ameaça ainda paira no ar. Talvez ocorra à noitinha, sua hora habitual. Feito a  espada de Dâmocles. No meu epitáfio, poderia estar escrito:

“Aquela que viveu a desafiar a espada de Dâmocles.” Ou,

“Aquela para quem a vida foi tudo, menos monótona.”

Chove, pois, desde ontem, embora não seja uma chuva torrencial e ensandecida como a da noite passada.

E aqui faço um parêntesis, originado tempos atrás pela ideia de Primo Levi, em “É Isto um Homem?”, o qual inicia o prefácio dizendo “Por minha sorte, fui deportado para Auschwitz só em 1944…”. Digo:

Por minha sorte, tive a chance de nascer ávida por estudar e conhecer as coisas e, ao mesmo tempo, perder tudo que tinha e me tornar [completamente] vulnerável. Pois estas duas condições, a inclinação para o conhecimento e a pobreza, são imprescindíveis para que alguém possa sentir a plenitude da vida. Bem como para alguém se encontrar e nunca se perder de si mesmo – risco que correm os chamados bem sucedidos. Pelo menos desse mal fui livrada, amém. Não há perdas sem algum ganho.

E essa consciência foi se configurando depois do diagnóstico (sic), que eu sempre chamo de identificação. “A threshold situation“, situação divisora de águas.

E estamos falando de águas. Meu mais novo interesse especial, jamais “restrito”, sempre focado, é o estudo das águas. Hoje, depois do (sic) diagnóstico, aos poucos, fui aprendendo a separar as coisas. Em dias secos, conheço da água tudo que posso, embora o foco principal seja a água que temos de beber. Em tempos de dilúvio, porém, como a noite de ontem, não é hora de pensar: é hora de espalhar os baldes pela casa, secar os aparelhos, acalmar o filho, em pânico no início, pelo quarto alagado e com medo de perder vídeo game, micro e tudo. Por sorte (sempre há uma sorte), não choveu sobre a cama. Por fim, deixar que ele mesmo dê conta do quarto sozinho e, se calhar, ao mesmo tempo dê conta dos dois labradores transitando pela casa, para que ele se fortaleça enfrentando sozinho situações de emergência. Fingindo não estar nem aí, falta de empatia, para lhe dar espaço, fui checar os outros cômodos. Se todas as mães, mesmo mães aspergers, soubessem como isso funciona, experimentariam.

Ao mesmo tempo, tento não pensar. Deixar para  acudir no dia seguinte o meu próprio pânico, que o filho não vê. Por isso foi que deixei, na postagem no facebook sobre a chuva, no final: “We shall overcome, we shall overcome…” [enquanto lutava com as lágrimas, eu cantava por dentro].

A seguir, como diz Fernando Pessoa, em A Tabacaria:

“Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

Acredito que estudar a água seja um ato de rebelião: você não pode com a água mas pode decidir o que fazer quando a água é boa ou ruim, quando ela vem, ou quando está ausente. O fato de inundar a nossa casa foi acidental, como alguém que é pego por uma bala perdida. Diferente de todas as outras, no entanto, ontem mais forte e até parecendo irada, a chuva parecia dizer alguma coisa. Soava como que com uma intenção apocalíptica, redentora, como um bombardeio d´água que, para lavar para sempre alguns, acaba por afogar também inocentes.

A chuva forte se me afigurava também, no seu clímax, como um tirano totalitário. Se bem que maior, pois mesmo os tiranos não podem com as tempestades. Conforme o dia, a chuva tem uma ou várias mensagens. Especialmente ontem à noite, depois de já terem se apresentado as sete pragas e quando a notícia, o vislumbre, de juízo final sacudia o país, ela veio.

As águas da chuva pareciam dizer: Mors tua, vita mea (latim, para os distraídos). Sua morte é a minha vida. Frase bem fresca em minha cabeça pelo fato de estar a decifrar – e decifrar, para os curiosos e livres – é degustar – Racismo de Estado, de Celia Bernardes. Mors tua, vita mea parece ser o título original de sua tese, que deu vez ao livro.

Mors tua, vita mea: Para que eu viva, você precisa desocupar lugar. Fiasco para os tiranos. As águas que caem do céu vociferam tal princípio com muito mais autoridade. Para começar, chover é verbo intransitivo. Não há sujeito, nem nada. A chuva cai sem se importar sobre o quê, ou sobre quem.

O que fazer? Nem por isso ceder à água, enquanto, sem perceber, já temos cedido em demasia aos tiranos. O que fazer é: resistir a ambos. Não aceitar toda a água que vem, só porque aí está.

Hoje, pela manhã, quando ainda chovia (agora o sol finalmente se impôs), tomei uma pequena tigela azul (para confundir e atrair as águas do céu) e a coloquei junto ao portão. Minha revenge é estudar tudo aquilo que tenta nos abater. É não deixar que quebrem o meu espírito.

Pois bem, eu já sabia que o pH da água da chuva é ácido. Não é uma água boa para se beber como alguns acreditam. Nem tudo que vem de cima é puro e bom, mesmo que tenhamos o céu, simbolicamente, como algo unicamente puro e bom. Eu sabia, porém, nunca havia antes conferido in loco o pH da água. Tive o cuidado de colocar a tigela longe dos telhados, dos fios ou mesmo do muro e do portão, onde a água da chuva poderia cair e ricochetear, contaminada, para dentro da tigela. Colhi água direto do céu. Fui à cozinha e medi o seu pH.

Deu uma água de cor esverdeada, não chegando a azul. Em uma escala de zero a sete (ácida), sete (neutra) – e acima de sete (alcalina), a água da chuva deu, quando muito, um, pH de 6,2.

Diferente do inseto, que só enxerga para os lados e não olha para cima ou para baixo, e que morre afogado sem saber de onde veio a água que se abateu sobre ele, é preciso estudar o que nos ocorre. Pelo menos, na maioria das vezes, apesar de algum infortúnio, podemos ter dois prazeres. Um deles é sobreviver. Outro é transcender a mera sobrevivência e transformar em objeto de análise aquilo que tenta nos subjugar.

É assim que podemos dizer que estamos vivos.

 

Ana Parreira – Campinas, SP –  11 de março de 2016

Autora de

Tango Para os Lobos – Cantos proibidos de uma Aspie, e

Gente Asperger

Informações disponíveis de como adquirir – e LER – por e-mail: villa.aspie@gmail.com

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São sete horas da manhã e começo o dia, felizmente, pensando na conversa que tive com meu amigo Stephen Shore, ontem à noite. A esta altura, com o sol clareando, e na pressa, tomei um café ainda aquecido da tarde anterior, com um pão na chapa e manteiga Leco, sem sal (coloco sal light, com 60% menos teor de sódio), que fica fora da geladeira apenas o tempo suficiente, pois se liquidifica em cinco minutos sob o calor intenso que tem feito nesta terra de príncipes e princesas. “São todos príncipes se os ouço e me falam”, me lembra Fernando Pessoa. E mais ainda quando não falam, eu diria. Mas que ninguém se sinta endereçado. Essa tendência é menos original, e muito mais comum, do que cada um, com seus botões, imagina. É um vírus disseminado e sem controle, adotado como providencialmente correto.
Também, antes das sete, já havia limpado a mesa do computador, dando batidinhas no teclado, de cabeça para baixo (o teclado, é claro), para retirar as cinzas de cigarro de ontem, quando era muito tarde e fui dormir com a cabeça cheia de borboletas: finalmente, havia confirmado uma suspeita que trazia comigo há anos sobre o que de fato teria ocorrido entre Kanner e Hans Asperger. Também graças às trocas de idéias, por telefone, com minha amiga Inês Dias e sua generosa e silenciosa experiência no universo do autismo.
Stephen é um cara delicado, que não deixa o Facebook quando abro uma janela para falar-lhe, o que por aqui é costume. A bem da verdade, também não padecem desse hábito outros amigos como Adam, Benni, Debra, Gordon, Leo, Michael, Wendy, ou Yvonne – e, infelizmente, estou me esquecendo de alguns. Coloco-os aqui em ordem alfabética, uma das minhas “obsessões” favoritas, e dane-se o gambá com a nossa lista de “impairments”.
O denominador comum: todos estes são Aspergers ou autistas, cada um em um país que não este. Todos são autores de (ótimos) livros e alguns são PhD. Não posso adquirir todos os seus livros. Pergunto a Stephen se ele pode me mandar os livros dele, meio constrangida, pois é um autor e tanto e essas coisas não se pedem. Um de seus livros é justamente Autism For Dummies, em parceria com Linda Rastelli e prefácio de Temple Grandin. Stephen, para minha alegria, promete enviá-los. Combinamos que se o seu editor permitir, serei sua tradutora para o português. Foi-me apresentado por amigos de Fortaleza, que o conhecem pessoalmente, pois Stephen adora vir ao Brasil.
Assim, eu que às vezes não tenho como viajar nem pra Caconde, de algum jeito viajo pra Pasárgada e, com isso, quando assusto, consegui reunir a minha “comunidade autista internacional” e, aos poucos, todos os dias, vou formando uma ideia de como sobreviver no mundo enquanto Asperger, bebendo nas melhores fontes. Sendo que um autor puxa outro.
Eu tinha jurado pra mim mesma que não escreveria um livro “sobre” Aspergers. A produção de livros excelentes, muitos aqui desconhecidos, sobre Asperger e autismo ultrapassou, imagine, a linha do infinito. Mas catarse é catarse. Acabei parando tudo porque algo estava involuntariamente em gestação. Estou escrevendo um livro que é mais ou menos um docudrama. Acho que, no fundo, estou mesmo é procurando responder às minhas próprias perguntas, ao meu próprio espanto, do que deixar respostas e receitas. Então, o livro terá um pouco de tudo.
Para o antecipado olhar crítico de uns, terá muitas histórias que até hoje foram mal contadas, ou nem foram contadas – o que lhes dará um self-service de coisas a contestar. Para desespero de outros, principalmente alguns doutores, terá pitadas de poesia. O que lhes dará momentos de agonia e êxtase, enquanto dizem “Bah!”. Para o leitor curioso, para mães de Aspergers e autistas, terá o meu respeito e, quem sabe, dicas que lhes sejam úteis. Mas, em tudo, meu livro se propõe a ser apenas um ponto de partida. Nem sei se vou dar conta do recado. Sei que Stephen, por exemplo, já o está esperando pra ler. Isso é uma responsabilidade, me assusta.
Mas vou ter que saltar do trampolim, com medo e tudo. O livro fica pronto, talvez, em uns três meses. Desde o ano passado estou escrevendo e há mais de ano colhendo dados e fatos reais, inclusive do nosso cotidiano.
Quem tiver intenção de adquirir o livro para ler, vou fazer uma pré-venda. Nem sei como fazer uma pré-venda. Por isso peço que se você estiver interessado, me mande um e-mail sem falta. Vou deixar seu nome numa pasta e aviso quando estiver pronto. Já tem nome, capa, tudo, tem até Bettlheim, esse execrado, pois eu gosto de puxar o fio da meada de coisas ditas de boca em boca. Quis saber quem, afinal, saiu com essa história de mãe geladeira e descobri que papagaio come milho… Por falar nisso, o livro tem episódios recentes também, alguns de como e por que tipo de gente (principalmente por psicopatas) os Aspergers são perseguidos – e como se defendem. Prato cheio. E pitadas do Oriente. E o que, pergunta um, tem o Oriente a ver com o autismo? Saberá.
Agora são nove e meia da manhã, quando termino este post.
Enfim, quem vai querer? Pode levantar o mouse aqui, mas se for de verdade, mande um e-mail para villa.aspie@gmail.com.
Um abraço
A autora

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COMO SÃO FEITAS AS NOVELAS?

Como são feitas as novelas?
Há algum tempo não tenho escrito no blog. E nem posso declinar aqui os motivos. Entendi que tudo o que eu tenha a dizer sobre Asperger, sobre autismo e todos os episódios e situações vividos nesse universo deva ser contado de uma vez no livro que estou escrevendo. Espero terminá-lo ainda este ano, se conseguir, porque algumas memórias doem. Outras vezes porque eu demoro no ofício de escrever: penso muito, releio, pesquiso, converso com pessoas. Assim que estou cozinhando esse livro em fogão de lenha: lentamente.
Mas um fato me fez parar hoje e escrever este artigo. Foi a questão da novela Amor à Vida (sic), que veio com a promessa de mostrar a personagem principal como uma pessoa no espectro do autismo.

A novela Amor à Vida
Não assisto à novela, mas fui conferir na Internet alguns capítulos onde Linda aparece, de tantos comentários recebidos ou lidos. Não vejo novelas de maneira geral, já que há mais de dez anos decidi não ver – e nem tenho mais – televisão. Desde então, e como sou cinéfila, assisto a um filme por dia.
Mas a expectativa gerada pela novela, antes de sua estréia, e a minha experiência nos cursos de roteiro dados por pessoal da Globo, que me mostraram como são escritas as novelas, me fizeram buscar contato com a produção. Era uma tentativa desesperada de reverter uma situação nada difícil de prever, ou seja: a novela não iria mostrar uma pessoa autista de verdade. Nem remotamente, em se tratando de “ficção”. A novela não viria para defender a causa do autismo. As demais personagens ao redor da personagem principal não iriam refletir o que é uma família envolvida com um caso de autismo. Pelo menos, eu tentei. Sei que outros também tentaram.

O contato com a Globo
Quem me respondeu foi alguém ligado à produção, que, em tese, teria passado “todas as informações” sobre como é uma pessoa autista. Disse-me que a novela iria mostrar uma moça Asperger. Estranhei (mais do que já havia feito), pois não seria possível que uma única pessoa, um homem, ainda que aparentemente no espectro, saber, afinal, como é uma mulher na condição de Asperger. Se nós, aqui no Brasil, mal conhecemos a síndrome no sexo masculino, que é dita, por enquanto, ser a mais prevalente entre os dois sexos.
A síndrome de Asperger entre as mulheres é ainda tão misteriosa por aqui, que até mesmo nós (eu inclusive), que vivemos a condição de Asperger, sabemos ou temos espaço para explicar como funciona, o que acarreta, em que nos diferenciamos dos Aspergers homens, as nossas dificuldades, os desafios, enfim, o que é ser Asperger no sexo feminino.
Portanto, uma moça com síndrome de Asperger, ou uma moça com autismo clássico, não poderia ser contada por um único consultor – e do sexo masculino. Mas, enfim, foi com isso que a produção da Globo se contentou, apesar dos infinitos recursos que tem, no sentido de fazer um laboratório com a atriz que faria o papel de Linda. Que, com o desenrolar da novela, começou a imitar… a Carley (menina autista).

Asperger ou autista?
Logo nos primeiros capítulos, vendo algumas cenas sem sentido, que já começavam a confundir o telespectador, fosse ele de alguma forma ligado ou não ao autismo, fiz novo contato com a mesma criatura, quando perguntei: “Mas, afinal, a Linda é uma autista, uma Asperger, ou o quê?”
A resposta que eu obtive, uma resposta resignada e parecendo bastante afinada com a produção, posição inusitada para um Asperger (que normalmente não aceita situações ambíguas), foi:
“Depende. Ela está entre autista grave e Asperger. (sic) A produção é que vai decidir. (sic!) Conforme o rumo que tomar a audiência da novela, eles vão modificando a personagem.” (sic!!!)
O mesmo que o homem do tempo dizer: O tempo? Depende. Pode vir uma grande tempestade ou podemos ter um tempo estável. Conforme as pessoas quiserem que seja.
Claro. Parte da confusão começa neste ponto. A Rede Globo não iria se preocupar em dar capacitação ao pessoal envolvido com a novela, desde atores até o pessoal da produção. Eu disse capacitação, e não pinceladas. Mas a novela ainda tem outros componentes, que fazem dela o que ela é: um prato de lagosta misturada com macarrão e rabanada. Uma história sem pé nem cabeça, em geral, a partir do décimo capítulo (quando o roteirista começa a se perder).

A revolta dos pais de autistas e dos Aspergers e autistas adultos
Todos se manifestaram. Alguns, dizendo que valia a pena falar de autismo, ainda que mostrassem tudo errado. Outros entenderam que falar de autismo da forma tão caótica, contraditória e deturpada, incluindo-se aí as reações da família de Linda, as “sessões de terapia”, o namorado salvador, tudo isso contribuía de forma negativa para que o autismo fosse mais desconhecido e mal interpretado do que já é.
Assim, vejo muita gente desapontada, e com justa razão, com os rumos que a personagem Linda tomou, bem como os demais personagens em torno de Linda e da questão do autismo.
Desapontados com justa razão, porém com a expectativa muito alta, se assim se pode dizer, enganados pela propaganda da novela e por não conhecer de roteiros, que, afinal, não é obrigação de nenhum telespectador.
Tentei avisar. Previa a angústia que se seguiria quando a novela fosse apresentada. Dizem (e o engano continua) que Aspergers não têm empatia, quando é bem o contrário. Senti, logo no início, que não queria ver tantas pessoas e tantos amigos grudados na telinha, iludidos, esperando “o milagre”.
Postei em vários grupos do Facebook o mesmo comentário, que poucos leram ou consideraram: ali eu reproduzi a conversa que tive com o consultor contratado pela Globo. Mas meu aviso não fez sequer cócegas no pensamento de alguém.

Como é feita a novela?
Então, imaginando que prestem alguma atenção a esta postagem e que tenham lido até aqui, vou explicar como é feita uma novela. De maneira bem geral, na Globo, funciona assim:
1. Primeira etapa. O tema da novela é escolhido em função da audiência das novelas anteriores. A Globo perdeu pontos? Vamos ver o que podemos trazer para captar a atenção de mais telespectadores. Aí, alguém surge com um tema interessante. O autismo, por exemplo. Algo que está começando a atrair os olhos das pessoas somente agora, mas enfim, agora. Vamos de autismo, então! Quantas pessoas a mídia diz que estão envolvidas? Dois milhões? Que ótimo. Um número bem significativo para se começar uma história.
2. Segunda etapa. Na Globo, se isso mudou eu não sei, mas toda novela é “baseada” em alguma das tramas de Shakespeare e deve ter seus principais componentes como personagens principais. Romeu e Julieta, por exemplo.
Desnecessário dizer que ninguém ali leu Shakespeare – e nem é o caso. Basta que saibam o resumo do resumo do resumo da história – e isso a Globo tem nos registros de roteiros. Que, basicamente, contém um herói, um vilão, um santo, um “atrapalhador”, um grupo de pessoas e um local onde as coisas se passam.
Além dos personagens principais, há os personagens secundários, que em geral são estereótipos (personagens que não têm conflito – são sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, chova ou faça sol na história).
Há em seguida os figurantes, que passam no fundo, o garçom que serve um café, um pé aparecendo, pessoas andando na rua, ao longe, por exemplo).
3. Terceira etapa. Há dois ou três personagens principais, assim como há outras histórias correm em paralelo para dar movimento à história, e eles são divididos em núcleos. Há, portanto, o “núcleo da Linda”: a própria Linda e pessoas ligadas mais diretamente a ela. Há outros núcleos e neste caso, como não vejo a novela, não saberei nomear. Mas, suponhamos, pode haver um núcleo do namorado da Linda: a família e os amigos dele, a casa dele etc. E outros ainda.
4. Quarta etapa. O roteirista encarregado, em geral, possui uma equipe. Ele não daria conta de escrever sozinho o dia-a-dia de todos os personagens. Assim, cada equipe, em geral de roteiristas novatos, e sem muita experiência de vida, pela pouca idade, fica encarregada de desenvolver um núcleo. Isso quer dizer, escrever um mini-roteiro por dia e tudo muito rápido, semanas antes daquela cena ir ao ar, pois os atores precisam ensaiar ou pelo menos ler o roteiro.
5. Etapa cinco. O caos completo. Imagine cada grupo escrevendo, em separado, a história de um núcleo, sem conexão uma história com a outra. Bem como a história de cada personagem principal, sem o tempo devido para os roteiristas anônimos (só o principal aparece) se comunicarem entre si como deveriam. Em poucos capítulos, a novela se transformou numa Torre de Babel, com personagens se chocando uns com os outros na história. Por exemplo, cenas da terapia de Linda precisam ser enxugadas, pois, suponhamos, o ator que faz o terapeuta teve uma indisposição e não pode gravar naquela semana. Ou porque outros personagens precisam aparecer mais, se ainda não gravaram. A história de Carley surge na mídia e alguém se lembra de “aproveitar o gancho” e escrever uma cena para Linda. Pronto, uma Asperger vira uma autista. No dia seguinte, ela é Asperger outra vez, se outra situação parecida ocorreu.
Enfim, considero a novela, tal como é feita, de improviso, como um compasso com seu eixo fincado de maneira frouxa. Sem poder traçar um círculo perfeito, traduzindo, sem poder delinear um personagem coerente.
A questão do autismo, para a Globo? Vai bem, obrigado. Pois todo mundo, do universo autista ou fora dele, contra ou a favor, está como a Globo queria: com os olhos grudados na telinha, seja para aplaudir, para “aprender”, para se reconhecer na história ou não, ou simplesmente porque é hora da novela – e ela está falando de autismo.
Portanto, tudo o que a emissora quer é a sua audiência.
Considero isso o mais sórdido dos negócios: aquele que lida, de maneira leviana e inconsequente, com a Esperança das pessoas.
*******************

Agora, cá entre nós, os únicos interessados. Nós precisamos ir muito além de “falar de autismo”.
Também precisamos, com urgência, falar com os autistas.
Nada sobre nós sem nós. Os autistas agradecem.
Essa novela, para ter sido minimamente verossímil, com mais dados de realidade, teria que ser feita, dirigida, produzida e alimentada por diferentes pessoas autistas e com atores autistas no núcleo central.
E pela qualidade que teria, então, a novela, os autistas empregados bem poderiam estar ganhando remuneração dobrada.
Nem mais, nem menos.
Mas isso, aqui, nos tempos de hoje, talvez seja o mesmo que falar da ficção da ficção.

Ana Parreira
Campinas, 29 de janeiro de 2014
Contato: villa.aspie@gmail.com

Para saber mais, veja um artigo muito bom de Cyntia Beltrão:
http://femmaterna.com.br/autismo-protecao-e-autonomia/

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Tenho para mim que um ego assustadoramente grande impede aquele que o possui de ver a real grandeza de si mesmo enquanto pessoa. Do mesmo modo que um ego demasiadamente pequeno também ofusca a real visão de seu possuidor.
Nem o que tem enorme ego nem o que o tem diminuto podem gozar de autoestima.
A autoestima não é ter um ego gigante, tolo e estouvado, mas sim, é o equilíbrio entre grandeza e humildade na medida exata: somos grandes e somos pequenos – isso é o que nos faz humanos.
O ego inflado nos torna seres meramente emocionais (suponhamos que, a grosso modo, seja assim no espectro neurotípico): assim, tendemos a ter como amigos somente aqueles que nos elogiam e nos adulam (nos manipulam). E nos afastamos, e mesmo nos irritamos, com quem nos tenha verdadeira amizade e nos avise das coisas como elas são, porque não nos quer cegos.
O ego inflado, que poderia ser chamado de Grande Ego, é um dragão voraz, que precisa ser alimentado todos os dias e não se sacia nunca. Ele vê a floresta, é emocional, superficial e apressado.
Por sua vez, o ego diminuto , solapado ou encolhido, o Pequeno Ego, é igualmente prejudicial ao nosso estado de ser. Ele é racional (suponhamos que, a grosso modo, seja assim no espectro autista) e leva em conta minúcias, considera toda e qualquer opinião, sendo às vezes tomado por todas elas. Ele se perde nos detalhes e deixa de ver a floresta, daí a lentidão em tomar decisões e em sobreviver.
Uma pessoa pode se considerar um nada, quando de fato tem valores que desconhece. E isso vale para os egos grandes e pequenos.
Daí ser possível entender que o exercício do autoconhecimento seja árduo, porém possível e necessário. Só ele conduz à autoestima.
Nesse processo, nós sofreremos vários enganos – mesmo assim, precisamos continuar seguindo.
E a autoestima (que inclui, ao mesmo tempo, as nossas grandezas e pequenezas) é a chave, é o Caminho do Meio.

Ana Parreira – (trecho brainstorm de livro em andamento, aberto a críticas de preferência honestas, elegantes e esforçadas)
Nos vemos dia 9 de novembro em São Carlos, no Módulo I do curso Aspergers em Sintonia.
Informações com yonepalma59@gmail.com.

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SERÁ QUE EU SOU ASPERGER?

DIAGNÓSTICO: A VOLTA PARA CASA

por Ana Parreira

Transpondo um portal
Até um ano atrás, eu não pensava em fazer avaliações para diagnóstico da síndrome de Asperger. Todo meu tempo era ocupado para entender a condição de Asperger em mim mesma, em meu filho e nas pessoas Aspergers que tenho contato, aqui e fora. Era um tempo que eu precisava para me deveras me conhecer e pôr algumas coisas no lugar. Até aí, eu me permitia apenas divulgar o conhecimento da síndrome e do universo Aspie, a fim de que o a sociedade se tornasse um tanto mais aberta para a nossa existência e para o convívio com as pessoas Aspergers.
Como essa descoberta se deu comigo na idade adulta e provocou uma série de transformações em cascata, tudo, então, a partir do diagnóstico confirmado, começou a fazer sentido: tanto as conquistas como os fracassos. De repente, eu deixei de ser apenas uma árvore para, ao mesmo tempo, ver que tipo de árvore eu era, observar as outras árvores em volta e observar a floresta como um todo. Acho que é Brecht quem diz que: “Para entender a floresta é preciso sair de dentro dela.”
Em geral, as pessoas autistas veem as árvores e os neurotípicos veem a floresta. Mas quando acontece uma autodescoberta, passa a ser possível juntar as duas visões: a visão local, ensimesmada, individual – e a visão panorâmica, geral, coletiva.
Então eu senti que, sem perceber, acabava de transpor um portal. Como se fosse a etapa decisiva da individuação de que fala Jung. No alto do portal estava escrita uma palavra: Identidade.
Meu foco de estudos se voltou para essa fase da vida, a fase adulta, e encontrei pessoas nas mesmas condições (Aspergers), cada uma com uma personalidade e com um tipo de vida próprios, e todos com uma mesma sensação: alívio.
Ainda não encontrei um Asperger que se lamentasse por ser Asperger. Ao contrário: todos que conheci demonstram ter integrado essa condição em sua vida, com mais ganhos do que perdas. Todos, que eu digo, são os Aspergers já adultos. Eles têm em comum um sentimento de Aceitação.
Aspergers vêm sendo identificados como tais em número maior do que o esperado. Contando com as crianças e adolescentes no espectro do autismo, pode ser que não sejamos minoria, como hoje se acredita. Encontrei Aspergers desde jovens até oitenta e três anos.
Os mais velhos, em geral, depois do diagnóstico (que eu chamo de identificação), começam a puxar pela memória e encontram pessoas na família, como pais, avós, que já morreram e que também eram Aspergers. Estes experimentam um momento mágico, onde contas são resgatadas e acertos internos são feitos. Quando alguém se conhece a si mesmo, começa a se entender melhor com o mundo e, mesmo com toda turbulência do mundo, ele passa a sentir um razoável bem-estar.
A questão de atender pessoas para avaliação diagnóstica veio aos poucos. As pessoas que me procuram percorrem longas distâncias até chegar aqui, ficam três, quatro dias em um hotel, passam os dias inteiros mergulhadas, na busca de si mesmas, ajudando na sua própria “escavação”, sem demonstrar cansaço. É um trabalho em conjunto. Normalmente, eles já procuraram outros lugares. Eles não vêm em busca de um laudo, mas vêm em busca de confirmação para algo que já descobriram e querem ter certeza:
“Será que eu sou mesmo um Asperger?”
É como se fossem peregrinos, que chegam de uma longa jornada e perguntam:
“Será que eu estou, finalmente, no caminho de casa?”

A volta para casa
Voltar para casa é encontrar-se consigo mesmo.
Quando nascemos, estamos de bem conosco. Somos o que somos – e por isso não temos conflitos nem guerras internas.
Aos poucos, porém, percebemos que, no lugar em que acabamos de chegar, ser o que somos não basta. Então experimentamos a vida: olhares curiosos ou desatentos, gestos hostis, falas bizarras, ordens sem nexo, costumes que não nos confortam, acordos que não faríamos, ouvidos que não nos ouvem, costas voltadas, em vez de mãos estendidas.
E assim, para sobreviver, vamos, aos poucos, nos afastando de nós mesmos na tentativa de ser um Outro, qualquer Outro que seja, desde que agrade ou apazigue os que nos rodeiam.
Somos vistos com estranheza por olhos mais estranhos ainda – olhos que tudo perscrutam, mas que não nos enxergam. Para não sofrer enxovalhos, vestimos a capa cinza que nos dão, dizendo:
“Este deve ser o seu traje, porque é um traje mais adequado”.
E nos tornamos cinzentos, conformes, para satisfazer os outros à nossa volta.
E quando, enfim, nos deixam a sós em nosso quarto, regalia que nos permitem neste inusitado embate, logo tiramos a capa, nos sentamos ao nosso modo, sentimos a nossa pele, balançamos as mãos e os braços querendo voar e encontrar o nosso eu dividido.
Por sorte, possuímos algum objeto, uma pedra, um talismã, uma foto, uma lasca de madeira em que lançamos nossa energia represada – e consagramos esse objeto como sendo a nossa caixa de memórias, a nossa energia vital. E carregamos esse objeto para todo lado, ou o guardamos de olhares intrusos, num canto só nosso, para não nos perdermos de vez.
Por isso, quando me dizem, com olhar esperançoso, “Eu só queria saber se sou mesmo Asperger, isso é tudo.” – eu sei de que estão falando. Sim, isso é TUDO.
O diagnóstico é, ou pode ser, um momento de redenção. O grande reencontro. O reinício de tudo, agora por outros caminhos.
É o momento em que todas as ciências de fato, todas as ciências autoproclamadas e todas as regras sociais não são suficientes para nos impedir de recitar poemas, sim, poemas, como, por exemplo, o Poema Em Linha Reta, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). Talvez, ele mesmo um Asperger.
É a partir daí que colocamos uma placa na porta de casa, dizendo a frase de Eleanor Roosevelt:
“Ninguém pode me fazer me sentir miserável sem a minha permissão”.
Por isso mesmo, uma avaliação diagnóstica deve receber muita atenção e cuidado.

A chegada
O que é preciso

A partir da disposição de se deixar avaliar para se descobrir ou não como um Asperger, é preciso, em primeiro lugar, andar devagar e permitir que o rio corra sozinho.
É preciso não ter pressa. Para se avaliar uma vida inteira e o que mais possa vir pela frente, não bastam duas horas. Não bastam os “sintomas”. E nem as “dificuldades”. Não basta resumir tudo a uma tríade de limitações descrita nos manuais médicos.
É preciso levar em conta o que já foi superado e integrar a pessoa em seu contexto, ah, o contexto. Toda uma história de vida.
É preciso desconstruir essa história de vida, olhar com uma lupa cada detalhe, cada momento, cada passagem, puxar o fio da meada, eliminar outras possibilidades, ir aos livros raros, ir e voltar, é preciso ouvir, ouvir e falar, é preciso serenidade, porque vamos evocar, nesse trajeto, os nossos deuses e os nossos demônios. Encarar as nossas habilidades e os nossos limites.
É preciso listar as perdas, avaliar os estragos, sem deixar de reconhecer as vitórias alcançadas.
É preciso o confronto consigo mesmo e, para isso, é preciso Coragem. Porque esse confronto é, de longe, a maior batalha que um homem tem a travar.
É preciso, a um só tempo, guiar e se deixar guiar, ouvir e ser ouvido, entrar por terrenos nunca explorados, é preciso exigir e aceitar um Olhar cuidadoso, não um Olhar distante, vago, casual.
É importante deixar que outros participem, trazer uma esposa, uma mãe, um irmão, um amigo ou um colega de trabalho, caso o trabalho exista. É preciso deixar que eles falem.
É preciso ouvir as dores, físicas ou existenciais, é preciso se valer de exames médicos, de questionários, é preciso investigar os sentimentos vários e perceber a sua presença no mundo, se até agora foi dolorida ou teve momentos bons.
Idealmente, é preciso sair à rua com o seu avaliador, ir a uma loja, escolher uma comida, parar para um café e se deixar ser naturalmente observado.
É preciso falar das trocas, dos cheiros, do banco de escola, dos interesses, dos sonhos perdidos, do tecido que arranha, das luzes, dos sons, dos gestos e da ausência deles. Tudo isso é o contexto.
É preciso traçar a planta de uma casa que foi construída sem que até hoje essa planta estivesse à mão. Entrar pelas janelas, abrir as portas dos quartos, inclusive a porta que dá para o quarto escuro.
O diagnóstico é o “Habite-se”. É o aval para encontrar e habitar o seu eu verdadeiro.
Essa é uma jornada que não se faz sozinho, embora também seja possível.
Então, e só então, se o diagnóstico se confirma, vale a pena celebrar: ser Asperger não é uma tragédia nem é uma condição de que se orgulhe simplesmente.
Ninguém que se arvore em dar diagnóstico a um(a) asperger pode fazê-lo com precisão se não aprender a pensar como um. A tríade de “impairments” é pouco para nos definir. As “dificuldades” ou “limitações” não nos definem. Uma pessoa asperger é muito mais que isso. É preciso avaliar as qualidades especiais também. O caminho para se avaliar um asperger passa pela empatia, pela curiosidade solidária (não invasiva) e pelo respeito.
Por princípio, eu não respondo questionários para teses, se me pedem – e já aconteceu duas vezes. Fico confusa porque não sei como responder a pessoas que abordam aspergers com essa intenção. De pronto, vê-se um distanciamento. E à distância não se pode conhecer nada ou ninguém. Pessoas que veem um asperger como um “paciente” nunca saberão quem é de fato um asperger, se não partirem do ponto de que aspergers são, acima de tudo, seus iguais. Às vezes, com alguns pontos de evolução à frente do seu tempo. Difícil para uma pessoa típica entender isso, mas não impossível.
E diagnóstico não é sentença. É o reconhecimento de um estado de ser – e é a oportunidade para um recomeço.
Nessa empreitada, tenho encontrado pessoas que, quando confirmada a sua condição de asperger, se emocionam e choram.
Elas só queriam saber, afinal, quem são.

Ana P.
**************
Quote:
Homem, conhece-te a ti mesmo.
Sócrates

Música para o texto:
TOCANDO EM FRENTE
Almir Sater

Acompanhe o próximo post a ser publicado, em continuação deste:
TODOS OS DIAS SÃO MEUS (em breve)

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-EM TEMPO – post 1

Esta mensagem nasceu depois de uma conversa que tivemos, a minha amiga Inês de Souza Dias e eu, ontem à noite por telefone.

São muitos os obstáculos e, em um mundo tão desinteressado quanto carente de informações vitais para o dia-a-dia, sobreviver oferecendo ensinamentos às pessoas é bem difícil.

Inês fez várias ponderações e me convenceu a escrever sobre o meu curriculum, ou parte dele. Ela dizia: “Ana, as pessoas precisam conhecer o seu trabalho, mas no universo autista você se apresenta mais como Asperger do que como psicóloga…”

De fato. Quer dizer: sim e não. Eu digo, em palestras, qual é o meu trabalho, porém tenho enfatizado mais a parte da síndrome de Asperger, pois as pessoas precisam conhecer. E isso leva a enganos. Pessoas vêm e me pedem “uma palavrinha”, mas não sabem que meu código de ética do psicólogo não me permite atender de maneira informal e superficial.

Portanto, sou, sim, Asperger, sou mãe de Asperger, e viver essa condição acrescenta muito, mas continuo sob as regras do meu código de ética e sob as diretrizes do CRP e do CFP. Uma explicação ou outra, após um curso ou palestra, não pode ser substituir uma consulta, que é um momento exclusivo da pessoa e que merece e demanda uma avaliação mais aprofundada, durante algumas sessões. Como Aspie, eu até posso incorrer em erros. Afinal, o autismo é um universo muito vasto e eu também posso me enganar, embora faça o possível para que isso não aconteça. Como profissional, tenho que vigiar para cometer o menor número de erros que puder (zero erro é impossível a qualquer um).

 Por isso estou publicando esta nota, que Inês e outras pessoas mais próximas consideram importante. Não só para mim, mas para quem precisa de ajuda. Um dia, com certeza, eu vou partir deste mundo. E ter acumulado alguns conhecimentos sem transmitir esse legado, que tanto me ajudou, é algo me dá o que pensar.

Para mim, o que ensina muito são as histórias. Uma delas é a história do plantador de laranjas. Decidi fazer uma tentativa. A história do plantador de laranjas será publicada em outro post e você tem tudo a ganhar e nada a perder seguindo as nossas (acho engraçado dizer “nossas”) publicações. Fique ligado!

Entre um post e outro contando primeiro a nossa história e, dali por diante, abrindo para temas especiais, do autismo principalmente, de vez em quando vou publicar, então, aqui a seção “Em tempo”. Para informações práticas que as pessoas possam necessitar.

Esta é a primeira publicação do “Em tempo”. Hoje, quero falar sobre algo que pode ajudar e direcionar as pessoas que me procuram – e as que têm dúvidas mas nem sempre me procuram. Algumas delas perguntam, o que é ótimo, enquanto outras deduzem, sem perguntar. A pergunta que me dirigem, ou que fica na interrogação de alguns, ou até passa despercebida é…

 

O que você faz?

Já disse. É verdade, sou Aspie. Isso me dá uma identidade de fundo, desde que me descobri como tal, depois de ter identificado meu filho caçula. Ambos temos o que os profissionais de autismo definem como “diagnóstico fechado”. Ter a condição de Asperger é desde o nascimento até o último dia de vida.

À parte isso, é preciso saber que sou psicóloga. Como também sou publicitária, escritora, redatora de conteúdo, tradutora, revisora e roteirista. Isso quer dizer que fiz, faço e posso fazer trabalhos em diferentes áreas, inclusive editorial, empresarial e de cinema (roteiros). E que escrevi alguns livros também. Mas vamos ficar, por enquanto, com a parte que tem a ver com o post de hoje, ser psicóloga. Costumo dizer que “sou” Aspie e “estou” psicóloga, mas às vezes isso causa um pouco de confusão.

Para todos os efeitos, me lembra Inês, é melhor dizer o contrário:

 Sou psicóloga credenciada (CRP 26784-6), mas sou uma profissional que ao mesmo tempo é Aspie. Coisas do destino. Isso é mais uma bênção do que uma complicação. Mas é uma complicação! O detetive Monk da série do mesmo nome diz: “It´s a gift… and a curse.”

E nesse campo de trabalho, o que eu posso oferecer é tudo aquilo que mais me move. Por ex:

 

1.  Dou palestras e cursos sobre alguns temas muito interessantes (believe me!).   Por menos que pareça, a princípio, os temas que ensino podem facilitar a sua vida e podem ampliar a sua visão de mundo. Também são muito importantes para a sua empresa. As palestras têm um valor – e cada caso é um caso. 

    O ponto é: o conteúdo de cada palestra é fruto de estudo, pesquisa, esforço, contatos, fontes seguras e atualizados. Cada palestra, em cada lugar, é feita de forma personalizada. Não temos uma palestra formatada para todos os lugares. Cada uma é uma surpresa, dependendo das necessidades e do tipo de público, e acaba por ser uma surpresa até para mim.

    Tenho uma quota de palestras voluntárias, que, na maioria das vezes, são lugares que eu mesma escolho e ofereço. Em qualquer situação, costumo oferecer coisas novas, não chover no molhado e não “copiar e colar da internet”. A preparação de uma simples palestra de 15 minutos, como a que fiz no evento de autismo da Câmara Municipal de SP abril deste ano, por exemplo, levou vinte dias para ser feita. Às vezes, um curso que eu preparo leva de um a dois meses para ficar no ponto. Sou apaixonada pelo que faço e penso muito naqueles que vão me ouvir. O que me move é um lema de Emmanuel Lévinas, que você pode ver no final deste post.

 

São estes os temas principais, em ordem alfabética:

– Asperger – o outro lado do disco:

  Sobre a síndrome de Asperger – grau leve dentro do espectro do autismo – com foco nos Aspergers adultos, com um olhar para a criança e para o adolescente Asperger, que logo serão adultos.

– A família das Emoções – que emoções nos guiam. É muito incrível saber das nossas emoções.

– A Teoria da Escolha – como fazemos as nossas certas e/ou erradas escolhas.

– Assédio moral e bullying. Grooming (novo).

– Auto-estima, atitude e a Coragem

– Cinematerapia e técnica de “cinema bem aproveitado”

– Como fazer apresentações (método Steve Jobs adaptado)

– Obediência cega (blind obedience) vs Autonomia moral

– Período do nazismo e Holocausto – e a condição humana, hoje.

– Por que cometemos erros

– Redação, português e leitura.

– Truques do cérebro e da mente (novo)

Há outros temas e subtemas, que outro dia eu coloco aqui.

Um deles, que é novo, trata de uma das técnicas de terapia para Aspergers e autistas que acredito: o treinamento de cães de serviço (service dogs). Nesse post, vale a pena adiantar a influência e as dicas de Luciana Vilella e Gisele Nader, da CãoAmigo Terapia Assistida por Animais – https://www.facebook.com/caoamigoterapia -, ainda que o nosso trabalho tenha tomado rumo diferente: um cão como “personal”, que deve ser treinado para acompanhar cada Asperger ou autista, morando o cãozinho na mesma casa.

Outro tema é o diabete. Como um asperger pode controlar o diabete em três meses? Nesse tema, tem sido de grande ajuda a médica Raquel Puggina. Também as médicas Nereida e Rosse, anjos da guarda.  Vou falar sobre tudo isso em um post mais adiante. Vem muita novidade por aí.

 

2. Consultoria e orientação:

    Atendimento personalizado, com poucas vagas, pois restringi os atendimentos a no máximo 4 pessoas por vez.  Quando dou atendimento a empresas, os casos particulares precisam ser limitados a 2 pessoas por vez, no máximo. Pessoas que eu atendo são Vidas – e conhecer, ajudar, uma vida demanda um tempo, não apenas durante o atendimento, mas fora dele, pesquisando o que a pessoa necessita e preparando as próximas sessões. Como um ourives, que se debruça sobre um relógio raro dias e dias a fio. Acho que eu nunca me sentiria bem com um consultório lotado, a dizer “O próximo!”, “O próximo”, esse não é meu caminho.

    Exemplo de atendimento a pessoas:

    Pais com crianças aspergers ou autistas. Orientação e assessoria para os pais, com o foco na observação da criança e em suas necessidades, considerando a dinâmica daquela família.    Não fecho diagnóstico, nem dou laudo diagnóstico. O que faço é ajudar os pais a chegarem a um diagnóstico com segurança. Orientação sobre como e onde buscar recursos. Questões práticas como perícia, INSS, relação dos pais com autoridades, a escola, os profissionais de saúde e outros.

   Outro exemplo:

   Pessoas adultas que querem saber se são Aspergers. Orientação e introdução no mundo dos Aspergers.

Exemplo de atendimento a empresas e escolas:

Cursos de capacitação para: encontrar, recrutar, contratar e fazer integração de funcionários Aspergers ou autistas.

Casos de assédio moral no trabalho – como detectar e fazer um plano de prevenção.

 

3. Redação de conteudo e Revisão:

    Para sites, empresas ou pessoas físicas, inclusive revisão de petições legais para advogados.

    Este, para mim, que sou Aspie, é um dos trabalhos que gosto muito e que me ajuda a relaxar, portanto, sem prejuízo dos demais trabalhos acima, é feito com todo esmero e carinho.

   

Nosso contato: villa.aspie@gmail.com.

Em Campinas, tels: 19 – 2511.2443 ou 9185.0015.

 

Nota 1: Inês, obrigada pela nossa conversa de ontem, e espero ter explicado. Por enquanto, como vê, ainda não desisti.

Nota 2: Tudo o que está produzido neste site tem direitos autorais. Pedimos que não reproduza os nossos posts. Em vez disso, por que não ajuda a divulgar este blog, indicando para os amigos? É fácil: https://villaaspie.wordpress.com.

“O mundo precisa conhecer o autismo”, mas não precisa de mais cópias – você também pode fazer a sua parte e ser original.

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Quote:

“Sinto-me responsável pelo Outro

pelo simples fato de olhar para o seu rosto.”

— Emmanuel Lévinas

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