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Archive for the ‘NOSSO CAMINHO’ Category

E agora? Eu já disse que não ia falar de Pedro só pelo fato de ser Asperger. Pedro tem 25 anos, é um adulto. Mesmo que ainda fosse criança, eu não gostaria de tirar sua privacidade. Agora me enfiei num beco sem saída…
Pois bem, sei que todos os NTs gostam demais de saber histórias pessoais dos Aspies. Como são, o que comem, o que bebem, o que pensam, como pensam. Às vezes, fico me perguntando para quê. Para nos controlar melhor, pode ser. NTs são muito controladores das pessoas e do ambiente.
E os Aspergers ficam à mercê de suas decisões, tanto para ser incluídos como para ser excluídos, em um mundo eternamente instável e complicado.
Mas, por outro lado, os NTs podem dar dicas preciosas, pois há entre os NTs pessoas de todo tipo, muito boas, inclusive. Conheço vários!
Bem, chega de enrolar e vou falar do Pedro tudo o que seja possível.
Ele é quieto, de poucas palavras. Assim como era o seu pai, JC. Também não fica a ouvir alguém por muito tempo. Pedro saberia dar uma palestra em 5 minutos, pois consegue resumir uma situação com muito mais capacidade de síntese do que eu. Um dia, perguntei:
– Por que você não senta aqui e conversamos…? (um assunto qualquer, que não me lembro)
Ele:
– Uma mulher tem 25 mil palavras. Um homem tem 5 mil palavras.
(e logo saiu de fininho como sempre, retornando ao seu quarto).
Outra vez, eu estava aflita com as contas a pagar. Falei, aimeudeuso… blablabla…
Ele: Mãe, não se preocupe. Dinheiro é papel desenhado!
E lá se foi, de novo, embora. rs
Pedro também tem um silêncio xamânico. O silêncio dele é que fala, não as palavras. Ele é a pausa das notas de uma música.
Ele se comunica muito por sinais. Se se cansou do chocolate favorito, enfia-o dentro do armário. Isso quer dizer que dificilmente vai buscá-lo de novo. Se acabou o pão de forma da vez e ele quer outro, estica a embalagem vazia sobre a mesa, bem visível. Isso quer dizer que se comprar outro, ele come. O patê, eu encontro bem na frente da prateleira da geladeira. Significa que está usando e vai continuar usando. Daí, eu experimento o patê. E o mesmo vai parar lá no fundo da geladeira, o que significa que não quer que mexa no “seu patê”. A loção pós-barba demora para acabar, mas, um dia, o frasco aparece na pia do banheiro. Está na hora de comprar outro. Eu faço uma lista e lhe dou. Abriu um supermercado aqui perto, ele vai buscar. Não precisa dizer nada, é só deixar a lista em cima da mesa, com o cartão ou o dinheiro.
OK, isso é uma conversa. A gente conversa assim o tempo todo. Em muitos casos, é um alívio do burburinho das pessoas no ônibus coletivo, que parece uma gaiola cheia de maritacas.
Quer ver o Pedro se dirigir espontaneamente a você? Precisa esperar que um bem-te-vi, um sabiá ou um pica-pau venha a pousar no telhado vizinho, ou no fio da rua. Então, ele corre e me chama. Só diz:
– Vem ver!
Eu já sei que algo lindo e inusitado está fazendo o espetáculo lá fora. Uma vez, quando morávamos no alto de um prédio antigo, no Centro, foi uma águia. Coisa rara uma águia no miolo da cidade poluída. Ele veio me chamar, mas a águia voou e não vi. Então ele descreveu a águia – e eu a vi.
Coisas da natureza são importantes, elas devolvem você ao seu princípio, bicho homem, bicho mulher, alma selvagem, indomável. Pedro sabe dessas coisas, parece que tira de letra onde encontrar sempre a ponta inicial do fio de Ariadne.
E, por favor, “don´t jump into conclusions”: “selvagem” não é “selvagem”. É simplesmente ser o seu eu verdadeiro. As pessoas se perdem de si mesmas, quanto maior for a cidade em que vivem. As pessoas só se conservam perto de si mesmas no campo. Por isso pagam fortunas para ir a um hotel fazenda. Para encontrar o seu eu perdido, pisando descalças na grama ou na terra.
Os Aspergers têm e podem ensinar a capacidade de não se perder de si mesmos. Os NTs podem nos mostrar como enxergar mais além, mas para nós não tem tanta graça, embora deva ser algo útil.
Muitas vezes é a lua. Ontem mesmo, Pedro me chamou. Ela estava enorme, amarela e brilhante. Pedro sabe como eu gosto de ver o céu e a lua. Queria tanto ir com ele e a Manu ver as estrelas e a lua no Observatório do Capricórnio, mas é em Souzas, tão longe. Se Pedro concordasse em sair para lá, eu veria um jeito. Às vezes, eu falo:
– Quer ir ver as estrelas se mexendo no céu, lá do Observatório?
Ele:
– Não.
Essa palavra, “não”, é a que mais se escuta não apenas no Pedro, mas em muitos meninos pequenos que são Aspergers. Em certos momentos, é um “não” que quer dizer “sim”. Em outros, quer dizer mesmo “não”. Um menino Asperger, tanto quanto um rapaz adulto Asperger, diferente das meninas, tem um verdadeiro fetiche pela palavra “não”.
Daí vem os Bwanas, quando falam de nós, Aspies, os dedicados às coisas da ciência, e definem: Aspergers têm “defiant disorder” (mais essa…).
“Defiant disorder” é… ah! dou-lhe uma chance (e darei várias) de você mesmo descobrir. Coloque no Google ou no Babylon.
Aspergers têm, sim, “defiant disorder”. Mas, às vezes sim e às vezes… “não”!
De maneira geral, a questão de fundo é que a ideia tem que ter partido deles próprios (dos Aspergers, que eu digo). Aí muda tudo. Outra coisa é que para chegar a fazer algo, esse algo tem que ter um motivo, um sentido, um propósito. Bem, isso também se aplica a mulheres e meninas Aspergers, pelo menos, é o que eu sinto e que tenho percebido nos Aspies adultos daqui e de fora.
Nos próximos dias, vou contar aqui a história da cidade de Abilene. Você vai entender melhor porque os Aspergers não vão, assim tão facilmente, para Abilene. Mas não precisa esperar pelo post. Tem no Google, dá uma olhadinha. Os NTs gostam de ir para Abilene, o que não é certo nem errado (pára com esse julgamento de valor!). É apenas uma característica NT, que os Aspies em geral não têm. Conto depois.
O futuro me preocupa, o que antes não preocupava. Depois do diagnóstico, passou a me preocupar. Outro dia, perguntei:
– Pedro, você precisa blablabla… Por que… e se eu tiver que “ir”, o que vai ser?
Ele:
– Ah, mãe, eu incorporo seu espírito e dou um jeito.
Justo o meu espírito, que fui avoada até outro dia desses?? Isso me apavorou um bocado. Às vezes, não apenas os NTs nos apavoram ou nos confundem com algumas ideias. Aspergers convivendo na mesma casa podem também provocar colisões e inseguranças um para com o outro, embora isso aconteça em proporções menores (hum… ou será que não…).
Eu esperei passar uns dias e tornei ao assunto:
– E o futuro… blablabla… (um blablabla, veja bem, o mais curto possível).
Ele (sorrindo):
– Ah, desencana, mãe. O FUTURO ESTÁ POR VIR. (ri) POR VIR… POR VIR…
É mesmo. O futuro está “por vir”. Este é um cacófato. Mas também, é uma metáfora.
O Asperger é uma metáfora.
O autismo, outra metáfora.
Os NTs… que metáfora!
O mundo é uma metáfora.
O silêncio de Pedro é lindo.
E a vida é uma metáfora.
Chega de pensar…
********************

Quote:
“Je donne mon avis non comme bon mais comme mien.”
(Eu dou minha opinião não como a boa, mas como a minha.)
— Michel de Montaigne

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Foi JC quem percebeu que meu interesse maior era por leituras que contassem sobre a mente humana e o comportamento das pessoas. De fato, pessoas são algo curioso e surpreendente, um desafio – e eu gosto de temas difíceis. A forma como o mundo gira é um tema difícil, estranho, inexplicável. Eu gosto de sondar o indizível.
Um dia, me disse: “Por que você não faz psicologia, se é disso que gosta?”
JC era um homem intuitivo. Seus ancestrais teriam sido negros e índios. Quando estava com febre, por exemplo, tinha seu próprio jeito xamânico de cura: ficava absolutamente calado, imerso em si mesmo, com a mente e o corpo enrolados em uma manta, até pingar de suor e colocar a febre pra fora. Seu silêncio me atraía como se fosse uma enorme floresta inexplorada. Ele me entendia no silêncio e era com “não-palavras” que a gente mais se entretinha em conversar.
Falava pouco – mas, quando falava, era sempre algo que clareasse o caminho. Ao me encontrar de novo mergulhada em um livro, um dia, ele simplesmente fez o que a muitos, no mundo do autismo, não lhes ocorre fazer: constatou o que, na época, era algo que hoje se repudia como sendo um “defeito” de “interesse restrito” (focado!) – o meu interesse por temas que falassem da mente, e sugeriu que essa inclinação fosse aproveitada.
O interesse focado, que perdura por um tempo e pode migrar para outro interesse mais adiante, é uma das melhores características, que, no entanto, na visão dos NTs (neurotípicos), consta da lista de “impairments” das pessoas Aspergers.
Mas tudo isso eu não sabia, simplesmente ia vivendo conforme a minha natureza muitas vezes criticada pelos que estavam em volta com frases como, “Você vive no mundo da lua.” Ou, “Ela é muito inteligente…”, dito isso, fosse por quem fosse, com um ar de quem diz: “Ela é muito diferente de nós.” Alguns sussurravam, “Esnobe…”, enquanto ao mesmo tempo esnobavam.
Eu deixava tudo passar. Minha vida sempre foi a de uma outsider, vinda do campo, que assiste a um filme enigmático tipo Matrix – e sempre pela primeira vez.
As punições por “não me enquadrar” em nada, que não eram tão visíveis para mim na cidade onde eu crescia, Bariri, foram aos poucos aumentando de tamanho quando vim para a cidade grande. São Paulo, onde terminei o curso de publicidade e propaganda, tendo sido uma das maiores aventuras trabalhar na Salles Americana de Publicidade, ao lado dos irmãos Mauro e Luís Salles. Depois, na Norton Publicidade, com Geraldo Alonso – pai e filho.
Era algo fascinante ver os gênios do departamento de Criação mergulhados no mundo das ideias, mundo este que sempre foi o motivo de eu ser tratada como diferente – e ali, era a matéria-prima para se conquistar respeito e ganhar o próprio sustento. Foi na minha mesa, no luxuoso escritório da Norton, que nasceu o CONAR – Código de Auto-regulamentação da Publicidade.
Quem sabe, um dia, eu estenda este blog para um livro, contando como fui arrancada bruscamente desse “mundo estranho” onde eu não me sentia estranha, pois todos ali recebiam recompensas, e não punições, quanto mais criativos fossem. Eu era apenas uma das secretárias, tinha muito a caminhar para chegar na Criação. Foi quando iniciei o curso de Publicidade e Propaganda, na Casper Líbero, que anos depois terminei na Puccamp, em Campinas.
Minha mãe interrompeu este vir-a-ser e me levou de novo para o interior, tirando-me de São Paulo com um subterfúgio, pois eu estaria “criando asas demais.” Tinha me transformado em uma rebelde. Não bordava, não cozinhava, ao mesmo tempo, era-me proibido ver o que se fazia na cozinha, para não chegar perto do fogão. Tocava piano, como toda moça “prendada”, eu tocava piano porque na música encontrava um alento.
A professora não falava muito, era ótima, ia para lá para dentro da casa e me deixava na sala de música – eu gostava de ficar dedilhando os exercícios do Czerny … do ré mi fa sol fa mi re do… O que seria para uns uma tarefa enfandonha era exatamente o que me me transportava à minha zona de conforto.
Mas o esperado era que me casasse com um fazendeiro, o que para mim, nesse tempo, não fazia sentido algum. “Eu nunca pressentia o futuro”.
Voltou tudo à estaca zero. Na primeira oportunidade, escapei de casa e rumei para Campinas, onde fiz o curso de publicidade que terminei em São Paulo. Hoje entendo que perambulei entre uma cidade e a outra como um bicho da floresta que foi para um zoológico e fica dando voltas para tentar encontrar o seu canto – encontrar a mim mesma e um sentido para o mundo tão esquisito. Não havia essa coisa de pais pagarem a faculdade dos filhos. Eu trabalhei como secretária, estudava à noite, foi como fiz os estudos até me casar. Quando ainda na Casper Líbero, em SP, eu saía do serviço, passava no supermercado, fazia compras e carregava junto com os livros para a escola, o que fazia às vezes a sala de aula ficar rescendendo linguiça e era motivo de risos dos colegas, mas essa era a rotina. Onze horas da noite, já em casa, começava a fazer o jantar.
Tinha dificuldades mas não havia com quem falar, nem por que falar, então, ia fazendo o que fosse preciso fazer. Nem pensava ser persistente, pois a palavra “teimosa” era muito ouvida quando fui levada de volta para casa.
Muitos anos depois, já com JC tendo partido subitamente, os dois filhos vivendo fora de casa e o Pedro, o caçula, quase chegando à maioridade, assisti ao filme “Adam”.
Já havia vivido tantos episódios e sofrido tantas perdas, que, nesses anos, chegara a alguma conclusão de que era mesmo diferente – e me sentia como alguém que tivesse “parte” com os meninos e meninas Down. Adorava estar com eles. Vivia “caçando” um Down onde encontrasse para conversar. E faço isso até hoje. Ah, que delícia que é.
Quando encontrei o Dalai Lama pela primeira vez, em Curitiba, conheci Eduardo, o filho do dono do hotel onde me hospedava – um hotel simples e mágico, onde também estavam os monges cantores, que o acompanhavam. Eduardo era um menino Down de quase dezoito anos. Foi com ele que passei o melhor tempo dos três dias com o Dalai Lama em Curitiba. Ele dava de dez a zero como pessoa, dentre todos que lá estavam. Acho que foi nosso jeito de ser, dele e meu, que fez com que os monges cantores ficassem nossos amigos – e nós passeamos incógnitos pela cidade, todos juntos, e quando eu estava com esse menino, tudo estava bem. Ele sabia tratar as pessoas com gentileza e se importava com cada mínima coisa que não estivesse muito legal comigo.
Ao longo deste relato, que terá uma série de postagens, eu não vou ficar a discorrer em detalhes sobre o meu filho, pois tenho uma filosofia: ele é uma pessoa – desde o nascimento – e não me sinto com licença para expor a intimidade de uma pessoa, qualquer que seja, simplesmente pelo fato de estar de alguma maneira ligada ao espectro do autismo ou ter lá suas características pessoais. Posso apenas falar por mim. Ele sabe falar por ele.
Mas alguma coisa vou poder dizer.
Sei que, ao assistir Adam, entendi que Pedro seria um Asperger. Sei que Pedro tem muitas coisas boas – e ser um tanto xamânico como o pai é apenas uma delas. Sei que ele é confiável, o que já é um ganho para um ser humano no mundo.
Para entender melhor esse universo e ter certeza da minha descoberta, fiz o de sempre: mergulhei no estudo do mundo Aspie. Eu queria entender tudo, mas tudo mesmo, para só então ver como dizer ao Pedro e ajudá-lo no que ele precisasse.
Até que cheguei à conclusão com a qual vivo até hoje: Aspergers são pessoas especiais e não há nada de errado com elas, pelo contrário. São, porém, estrangeiros que nunca perdem seu sotaque, por mais que vivam em uma terra estranha, a das pessoas ditas “normais”.
E foi assim que eu comuniquei ao meu filho:
“Vou lhe dar uma boa notícia! Você não tem nada de errado, muito pelo contrário, você é apenas um Asperger.”
Vimos alguns filmes. Mary & Max foi um dos primeiros.
Foi durante essa busca para explicar ao Pedro o que um Aspie seria que acabei me dando conta, com surpresa total: Não, ele não é o único Asperger nesta casa. Somos Aspergers!
Gostei! Tudo o que eu sentia, ou me diziam, que eu tinha de errado começou a se encaixar e a fazer sentido. Esse foi um divisor de águas em minha vida.
Mudou absolutamente tudo. Logo comecei a constatar a necessidade de me defender mais do que o nada que fizera a vida inteira.
Também percebi que, muito antes de sermos “Aspies”, somos, cada um, uma pessoa.
Apenas isso!
Como a condição de Asperger é nova – até desconhecida – no Brasil, isso ainda chama muito a atenção das pessoas. E pessoas levam muito tempo para aprender. Elas ainda não se deram conta de que esta é uma condição dentre milhares de outras – e que não existe uma única parelha, nem mesmo entre gêmeos, que seja idêntica. Cada um é diferente do outro.
Ah, quer saber “como tratar um Aspie?”
Simples. Como alguém comum!
Baixe a guarda:
Nós não vamos cuspir fogo, nem vamos morder ninguém.
Mas nem sonhe… como vou explicar… que vamos levantar facilmente a pata ao comando de um bully. As pessoas controladoras fantasiam: “Oba, eis aí alguém com quem eu posso fazer o que quiser…” – por isso alguns neurotípicos têm tanta curiosidade sobre os Aspergers.
Por isso, nós, Aspies, não temos liberdade para falar tudo o que sentimos.
Afinal, este é um mundo difícil. Mas se pode dizer alguma coisa:
Nós também gostamos de cinema e pipoca.
Também, um dia, aprendemos a ter atitude.
Se nossa resposta parece “lenta” é porque gostamos de pensar.
Não tiramos conclusões sobre coisas ou pessoas na primeira vez. E até entre cinco e dez vezes, é sempre a primeira vez.
Também temos preguiça, de vez em quando.
Para o que nos é bem feito ou para o que nos é mal feito, nós temos uma memória de elefante.
Achamos que a mania de mentir seja uma incapacidade.
Somos diferentes em algumas coisas, mas, no resto, é tudo igual.
Enfim, ser Aspie é ótimo. É como somos. Mas sem exageros.
Pense que ser neurotípico também é ótimo, se você for um.

PS: (Obrigada – e volte sempre. Porque a história continua…).
PS1: Repare que em nenhum momento eu coloco vírgula antes do “e”. Que coisa…
*************
Quote:
“I have made this letter longer because I have not had the time to make it shorter.”
(Eu escrevi uma carta longa porque não tive tempo de torná-la mais curta.)
(Blaise Pascal)

Acompanhe os próximos posts:
3. Pedro. Ser silencioso está no gene.
4. Aspergers adultos. Meu livro TANGO PARA OS LOBOS.
5. A vinda de Melão e Luna. Essa luz no fim do túnel.

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NOVA YORK
Era uma vez, em uma manhã de verão sem vento, na fábrica de freios em que eu trabalhava como secretária executiva, conheci JC. […]
Por fim, depois de perdermos seis bebês, tivemos o primeiro filho. Mas, para explicar como, finalmente, veio o primogênito, posso dizer que nem tudo era uma sequência de planos frustrados. Coisas estranhas e mágicas também aconteciam.
Um dia, visitando o túmulo de Dom Ramon, avô de JC, diante da foto dele eu soube que teria um filho e que seria um menino. Os olhos de Dom Ramon, naquela foto antiga e ovalada, esmaecida de tanta chuva e sol, me contavam. Ali mesmo, em silêncio e com uma certeza vinda daquele momento, fiz um voto de chamá-lo pelo nome do pai e do avô. Nós vivíamos em Campinas, porém, pelo trabalho de JC na Bolsa de Mercadorias, fomos viver um tempo em São Paulo por algum tempo. Ali nasceu Carlos Ramon e nos mudamos de novo para Campinas, para que ele pudesse tomar sol. Hoje, ele vive no Reino Unido.

Fred
Nessa época, eu fazia psicologia e, como desde então tinha o hábito arraigado de escrever cartas para autores que me tocavam ou me intrigavam, comecei a manter correspondência com Skinner, que viria a ser – ou já era – o pai do behaviorismo no mundo. Na faculdade, eu tinha um rato a quem chamei de Fred, que era obrigada a tomar entre as mãos, colocar naquilo que os professores chamavam “gaiola de Skinner” e fazer com que ele fosse condicionado a apertar uma barra para ganhar uma gota de água. Eu achava isso um absurdo e algo completamente sem sentido, tanto para mim quanto para o rato.
A duras penas me entendi com Fred, inclusive por ter que me conter diante do pavor de tocar em um rato, segurando aquela enorme cauda branca antes de pegá-lo (sem tremer, senão ele escaparia!) e foi um dos obstáculos mais difíceis que tive que vencer durante o curso, embora ninguém ficasse sabendo porque eu não expressava as minhas dificuldades. Achava que ninguém iria se interessar. Tanto sofrimento para, no fim, vir a monitora dizer que o Fred e os outros ratos iriam ser sacrificados.
A palavra “sacrificado” era um eufemismo, como tantos usados pelos nazistas, história (a da Shoah, ou Holocausto) na qual eu vim a mergulhar fundo, alguns anos depois, para encontrar um sentido para tanta barbárie no mundo. Um eufemismo que, na realidade, significava que Fred, depois de servir aos propósitos dos humanos, iria ser mesmo “executado”.
Entre o pavor inicial de tocar em Fred e, a bem da verdade, a minha silenciosa, apática e sem iniciativa compaixão pelo seu destino, um sentimento que borbulhava dentro de mim, mas para o qual eu não esboçava reação externa, como se o meu mundo de dentro não tivesse vez para eu mudar o rumo das coisas e, ao mesmo tempo, revolvesse tudo que houvesse no íntimo, nesse conflito entre resignada por fora e indignada por dentro, que nem professores nem colegas percebiam, localizei Skinner na Harvard, através do consulado americano em São Paulo, e escrevi uma carta a ele. Claro, não havia internet na época, essa mãe e, ao mesmo tempo, essa coisa do demo que existe agora.
Recebi de Skinner uma primeira carta que, de início, receei fosse algo que o tivesse incomodado, pois me parecia uma resposta seca, dizendo:
“Eu nunca fiz nenhuma gaiola chamada gaiola de Skinner.”
A notícia de nossa correspondência e da resposta de Skinner correu pela faculdade. Um professor, cuja matéria era a que eu mais precisava de pontos, surgiu certo dia na porta da nossa sala e me chamou. Queria uma cópia da carta. Perguntei para que, já que, na minha ideia, era uma correspondência particular e eu não tinha o direito de expor Skinner a nenhum comentário, fosse contra ou a favor. Para mim, era uma pessoa com quem eu trocava ideias, não me sentia com liberdade para dar outro uso a uma carta particular.
O professor disse que cobriria o cabeçalho com o meu nome, que só precisava da carta. Perguntei:
– PARA QUÊ???
Pela resposta, percebi que queria entrar em discussão com seus colegas, na época – como, no Brasil, até hoje! – divididos em turminhas de “compartamental” ou de “psicanálise”, sem meio termo. Não me senti confortável para dar-lhe uma “arma” de guerra, como não daria a qualquer outro, da mesma maneira, se a carta fosse de Freud (quem me dera, pois, igualmente, eu tinha muitas perguntas para ele, se estivesse vivo).
O professor ali mesmo me disse:
– Você sabia que isso está nos afastando?
Eu ouvi minha voz respondendo a única coisa que me ocorreu:
– Bem, eu nunca soube que fôssemos próximos!
Respondi concretamente. Não sabia, na época, que essa não era uma reação “diplomática”. Mas, no fundo, consegui pelo menos atinar, nebulosamente, que aquela poderia ser uma ameaça velada.
Fui para casa e estudei a matéria do tal professor, mas tanto, tanto, que consegui nota oito, embora tivesse acertado todas as questões da prova.
Ufa, desta vez escapei… mas à minha maneira. Sem fazer concessões, sem ceder a pressões de hierarquia.
Eu sempre tive a ilusão de ser livre. Sempre paguei o preço que fosse para tanto, ignorando que no mundo neurotípico você tem que saber negociar e, às vezes, fazer concessões. É como os neurotípicos sabem viver. Abrindo mão de suas convicções para agradar outros, em benefício próprio.

Hoje, entendo que poderia tirar nota dez na matéria do tal professor, simplesmente lhe entregando uma cópia da carta escrita por Skinner para mim. Mas isso me pareceu imoral e muito mais penoso do que estudar a matéria do professor, varando noites a fio, para conseguir passar de ano. Eu nunca fui política – e isso, que considero uma qualidade, é visto como uma “dificuldade” das pessoas Aspergers. Não é. Indo pelo caminho “mais difícil”, estudando a sua matéria, lucrei muito mais porque acabei aprendendo. Fazendo troca de favores, eu não ganharia nada além de um caminho fácil e sem graça nenhuma, ao meu ver. O professor também não ganharia nada, pois, afinal, iria enfiar-se em uma discussão inútil com seus outros colegas.
Enquanto isso, a questão do rato e o destino de Fred ainda me intrigavam.
Insisti. Enviei outra carta. Skinner entendeu a angústia e as dúvidas que eu tentava expressar. Mandou-me de presente, então, o seu livro “The Behavior of the Organisms”, autografado e, curiosamente, um pedido para que eu lhe enviasse cinco dólares. Fiquei confusa durante alguns dias. Como eu iria mandar cinco dólares? Felizmente, a matriz do escritório de JC, na época ligada ao Banespa (hoje Santander), em Nova York, fez a gentileza de enviar o dinheiro a Skinner. Que sorte… transações que envolvem dinheiro, seja para pagar ou para receber, sempre me confundiram um bocado.
Um tempo depois disso, JC foi à matriz em Nova York, em um encontro anual entre os corretores de mercadorias, e dali a uma semana eu fui encontrá-lo. Para comprar a passagem, vendi com remorso meu piano, ao qual eu dera o nome de Glaucus (em homenagem a um amigo, que havia morrido muito jovem), pois a empresa só me garantia o hotel, por ser esposa de JC, mas não o meu ticket de viagem. Andamos por Nova York e Chicago e ficamos nesse circuito da Bolsa de Mercadorias.
Odiei a Bolsa. Era um bando de doidos, saltando e gritando freneticamente, como se estivessem alucinados, pulando carnaval sem qualquer música tocando. Apesar de estarmos no mezanino e protegidos por vidro, eu podia sentir a vibração e o barulho. Foi um alívio quando tudo terminou e JC me levou até a rua, onde pude tomar um pouco de ar e me distraí com uma enorme limousine branca, com um bando de gente aglomerada nas calçadas, pois era o príncipe Charles que estava nela, disseram. Não quis me aproximar. Não havia saído de uma multidão para entrar em outra. Tudo que pensei foi “como será que essa limousine, comprida a perder de vista, consegue virar as esquinas?”.
Tive chance de ir visitar Skinner na Harvard, mas teria que ir sozinha, de trem, e não sabia contar moedas abaixo de 1 dólar. Era assim para tudo (mas, na época, eu não atinava o porquê): eu vencia sem perceber as maiores distâncias e esbarrava em coisas miúdas, que me apavoravam, me confundiam e me tiravam o raciocínio. Como alguém que, depois de atravessar a nado o Canal da Mancha, parasse, atônito, ao ver que havia chegado à terra, mas parasse ainda na água a alguns metros da praia e ali congelasse, sem sair do lugar.
Eu juntava todas as moedas abaixo de 1 dólar que me davam de troco até que lotassem um pequeno saquinho plástico – e JC, pacientemente, rindo da minha “enorme” dificuldade, ia em algum lugar trocá-las para mim por “notas compreensíveis” de papel de um a dez dólares.
Só por isso não conversei pessoalmente com Skinner. Outro “obstáculo” era, por incrível que pareça, a confusão que eu sentia sobre como deveria chamá-lo quando o encontrasse, já que o seu primeiro nome era Burrhus. Burruhs Frederic Skinner. Além disso, eu nunca acertava onde colocar a letra “h” do seu nome. Buhrrus, Burrhus, Burruhs. Nem acertaria a pronúncia tampouco. Será que, para ficar mais fácil, eu poderia chamá-lo de Fred? Não, pois eu sabia que, incapaz de mentir (e pensar intimamente sem revelar o pensamento ao meu interlocutor, para mim, era como uma mentira ou uma traição), acabaria lhe contando que meu rato, cuja “gaiola de Skinner”, que ele meio mal humoradamente já dissera que nunca havia feito, tinha o apelido de Fred em sua homenagem. E se ele se ofendesse com a homenagem? Na dúvida, e sem saber contar moedas, fiquei sem conhecê-lo e nunca pisei na Harvard. Era 1981. Skinner morreu em 90.

Yoko Onno
Estive no Central Park. Se atravessasse a rua, poderia apertar a campainha do Dakota Building, onde vive Yoko. Da mesma maneira que cheguei tão perto de Skinner, ela estava a dois passos.
Não atravessei a rua.
Não disse nem mesmo a JC que eu queria atravessar a rua.
A simples sensação de ter chegado até ali era tão intensa que, ao mesmo tempo que me bastava, me bloqueava os passos e a minha mente.
Fomos passear pelo parque, ver o urso polar, tirar fotos.
Achava que certas coisas não estavam ao meu alcance.
Voltamos para o Brasil. Demos sorte no vôo de volta, pois o mau tempo fez a aeronave pousar no aeroporto de Viracopos, em Campinas. Estávamos em casa.
Acho que tudo em minha vida foi assim: às portas de conseguir algo, ter chegado até ali já me preenchia. Nessa hora, eu sempre quis mesmo voltar pra casa.

Antes que eu me esqueça:
Meu primeiro filho, que ficara no Brasil aos cuidados de um casal de amigos, tinha dois anos. Anos depois, perdi mais um filho, fazendo a conta de sete. Vê-se, como se verá melhor ainda mais adiante, que de perdas eu entendo. Para compensar, veio uma menina. Em seguida, veio o caçula. Todos lindos, parecidos com o pai. Manuela Ísis, mais ainda. Todos de olhos e cabelos castanhos. Hoje, fico feliz que os meus três filhos tenham puxado mais o pai no fenótipo. Ser branca e de olhos azuis, no Brasil, traz algumas dificuldades, pois, nas filas do SUS, eu pareço  uma mulher rica. Então, acabo sempre no fim da fila, porque “uma mulher rica não deve ter privilégios por aqui.”

Outra dificuldade de ser brancas com olhos azuis no Brasil é a questão do racismo. Gente que Deus fez como eu não tem muitos amigos negros (embora os poucos que eu tenho sejam ótimos amigos, mas exceções). Gente branca, de olhos azuis, vive a pagar pelos pecados que outros brancos cometeram 500 anos atrás. É uma conta que nunca termina. Acrescente isso às dificuldades que uma mulher Aspie já possui de se entender com o mundo – e note que temos que vencer uma maratona por dia, todos os dias. O que nos prejudica muito a vida, porém, depois que passam esses episódios, acabamos ficando mais fortes.

Mesmo assim, gosto da ideia de que os três filhos tenham olhos castanhos porque terão menos dificuldade que eu, neste país. Pois, na verdade, a prática da discriminação é um esporte muito apreciado por pessoas neurotípicas, que ainda se acredita que sejam a maioria. Assim, o meu biotipo, ter nascido branca de olhos azuis, é apenas um, dentre mil “motivos” para que um grupo diferente discrimine. Poucas pessoas morenas sabem que os ancestrais de JC, com quem me casei, eram compostos de negros e índios. E nós gostávamos muito um do outro. Mas pessoas de biotipos diferentes que se casam, ou mesmo de convicções ou crenças diferente, em geral, são perseguidas fora e dentro da própria família do cônjuge, o que comigo não foi diferente.

É assim que o mundo inteiro vai se tornando cada vez mais infeliz, quando isto aqui poderia ser um paraíso.

Insisto em dizer que essa é uma prática que inexiste entre os Aspergers. Como diz a mãe de Khan, no filme indiano Meu Nome é Khan, “na verdade, o mundo é dividido assim: pessoas boas e pessoas más.”  É nisso que acredito e que entendo que os Aspies acreditam. É assim que vêem o mundo. Não dividimos as pessoas em raças, cores, convicções. Por isso, entendo que essa seja uma prática de neurotípicos, que também têm lá suas qualidades, mas é uma prática.

E a nossa história continuou, seguindo rumos que jamais pensei. JC morreu quando Pedro Stenio ainda era de berço. Os mais velhos já estavam grandinhos. O mais velho com onze e a menina com cinco. Fomos, as crianças e eu, tentar a vida em Americana. Ali, eu já mexia com arte reciclada. Era – e sempre será – uma tentativa de tornar coisas “desúteis”, como diz Manoel de Barros, em coisas que as pessoas pudessem gostar.
Na Casa de Cultura Hermann Müller, em Americana, participei de uma exposição de obras de arte. Havia obras imensas, se impondo naquele casarão igualmente imenso e lindo.
Eu levei o resultado de meu não-contato com Yoko. Um prato feito de papel maché, pintado de branco, sobre ele pedras roliças, pedras que a vida nos faz engolir. Ao lado, um par de rashis.
Comeria quem conseguisse.
Sobre a mesa, ao lado do prato, coloquei um sino dourado. E uma mensagem: “Homenagem a Yoko Onno.” “Se você acha que às vezes a vida é isso, toque o sino.”
Eu saía da sala e ficava andando por ali, a uma distância medida.
Não tinha coragem de olhar as pessoas vendo a minha “obra”.
Não sou artista plástica, nem artesã. Costumo dizer que sou “arteira plástica”.
Não sei o que as pessoas entenderam. Sei que, passeando no hall do casarão, a todo momento eu ouvia o sino tocar.
Ninguém me perguntou nada, como tampouco eu me dei a conhecer a ninguém.
Estava muito embevecida curtindo o casarão.
Yoko nunca soube. E se soubesse, o que será que diria.

O fato é que Yoko também sofreu muito preconceito, sendo oriental e tendo se casado com um inglês. Porém, as dificuldades só ajudam. Yoko é uma mulher-pérola, que se transforma a cada dia em um ser humano melhor, penso que exatamente por conta das perdas que sofreu.

É uma mulher que eu admiro.

Perdi de conhecê-la por “aspergice”.

Acompanhe os próximos posts:
2. Um salto no tempo. Somos Aspergers!
3. Pedro. Ser silencioso está no gene.
4. Aspergers adultos. Meu livro TANGO PARA OS LOBOS.
5. A vinda de Melão e Luna. Essa luz no fim do túnel.

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