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world water

Há muito tempo venho ensaiando acalmar minha consciência e honrar o compromisso de escrever mais assiduamente neste blog, que, afinal, foi aberto com essa intenção. E alguns leitores esperam. Se acabo adiando é pela eterna e “onipremente” situação de sobrevivência. Hoje, porém, além das tarefas de rotina e de uns livros para postar no Correio, nada tenho a fazer agora pela manhã, o nosso Day After, senão esperar que a chuva acalme.

Porque amanheceu e continua chovendo. E a ameaça de a chuva enfiar-se pela casa como um intruso que entra pela chaminé nas construções onde há chaminés, no caso, entrar pelos pontos de luz dos quartos, sala e cozinha, essa ameaça ainda paira no ar. Talvez ocorra à noitinha, sua hora habitual. Feito a  espada de Dâmocles. No meu epitáfio, poderia estar escrito:

“Aquela que viveu a desafiar a espada de Dâmocles.” Ou,

“Aquela para quem a vida foi tudo, menos monótona.”

Chove, pois, desde ontem, embora não seja uma chuva torrencial e ensandecida como a da noite passada.

E aqui faço um parêntesis, originado tempos atrás pela ideia de Primo Levi, em “É Isto um Homem?”, o qual inicia o prefácio dizendo “Por minha sorte, fui deportado para Auschwitz só em 1944…”. Digo:

Por minha sorte, tive a chance de nascer ávida por estudar e conhecer as coisas e, ao mesmo tempo, perder tudo que tinha e me tornar [completamente] vulnerável. Pois estas duas condições, a inclinação para o conhecimento e a pobreza, são imprescindíveis para que alguém possa sentir a plenitude da vida. Bem como para alguém se encontrar e nunca se perder de si mesmo – risco que correm os chamados bem sucedidos. Pelo menos desse mal fui livrada, amém. Não há perdas sem algum ganho.

E essa consciência foi se configurando depois do diagnóstico (sic), que eu sempre chamo de identificação. “A threshold situation“, situação divisora de águas.

E estamos falando de águas. Meu mais novo interesse especial, jamais “restrito”, sempre focado, é o estudo das águas. Hoje, depois do (sic) diagnóstico, aos poucos, fui aprendendo a separar as coisas. Em dias secos, conheço da água tudo que posso, embora o foco principal seja a água que temos de beber. Em tempos de dilúvio, porém, como a noite de ontem, não é hora de pensar: é hora de espalhar os baldes pela casa, secar os aparelhos, acalmar o filho, em pânico no início, pelo quarto alagado e com medo de perder vídeo game, micro e tudo. Por sorte (sempre há uma sorte), não choveu sobre a cama. Por fim, deixar que ele mesmo dê conta do quarto sozinho e, se calhar, ao mesmo tempo dê conta dos dois labradores transitando pela casa, para que ele se fortaleça enfrentando sozinho situações de emergência. Fingindo não estar nem aí, falta de empatia, para lhe dar espaço, fui checar os outros cômodos. Se todas as mães, mesmo mães aspergers, soubessem como isso funciona, experimentariam.

Ao mesmo tempo, tento não pensar. Deixar para  acudir no dia seguinte o meu próprio pânico, que o filho não vê. Por isso foi que deixei, na postagem no facebook sobre a chuva, no final: “We shall overcome, we shall overcome…” [enquanto lutava com as lágrimas, eu cantava por dentro].

A seguir, como diz Fernando Pessoa, em A Tabacaria:

“Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

Acredito que estudar a água seja um ato de rebelião: você não pode com a água mas pode decidir o que fazer quando a água é boa ou ruim, quando ela vem, ou quando está ausente. O fato de inundar a nossa casa foi acidental, como alguém que é pego por uma bala perdida. Diferente de todas as outras, no entanto, ontem mais forte e até parecendo irada, a chuva parecia dizer alguma coisa. Soava como que com uma intenção apocalíptica, redentora, como um bombardeio d´água que, para lavar para sempre alguns, acaba por afogar também inocentes.

A chuva forte se me afigurava também, no seu clímax, como um tirano totalitário. Se bem que maior, pois mesmo os tiranos não podem com as tempestades. Conforme o dia, a chuva tem uma ou várias mensagens. Especialmente ontem à noite, depois de já terem se apresentado as sete pragas e quando a notícia, o vislumbre, de juízo final sacudia o país, ela veio.

As águas da chuva pareciam dizer: Mors tua, vita mea (latim, para os distraídos). Sua morte é a minha vida. Frase bem fresca em minha cabeça pelo fato de estar a decifrar – e decifrar, para os curiosos e livres – é degustar – Racismo de Estado, de Celia Bernardes. Mors tua, vita mea parece ser o título original de sua tese, que deu vez ao livro.

Mors tua, vita mea: Para que eu viva, você precisa desocupar lugar. Fiasco para os tiranos. As águas que caem do céu vociferam tal princípio com muito mais autoridade. Para começar, chover é verbo intransitivo. Não há sujeito, nem nada. A chuva cai sem se importar sobre o quê, ou sobre quem.

O que fazer? Nem por isso ceder à água, enquanto, sem perceber, já temos cedido em demasia aos tiranos. O que fazer é: resistir a ambos. Não aceitar toda a água que vem, só porque aí está.

Hoje, pela manhã, quando ainda chovia (agora o sol finalmente se impôs), tomei uma pequena tigela azul (para confundir e atrair as águas do céu) e a coloquei junto ao portão. Minha revenge é estudar tudo aquilo que tenta nos abater. É não deixar que quebrem o meu espírito.

Pois bem, eu já sabia que o pH da água da chuva é ácido. Não é uma água boa para se beber como alguns acreditam. Nem tudo que vem de cima é puro e bom, mesmo que tenhamos o céu, simbolicamente, como algo unicamente puro e bom. Eu sabia, porém, nunca havia antes conferido in loco o pH da água. Tive o cuidado de colocar a tigela longe dos telhados, dos fios ou mesmo do muro e do portão, onde a água da chuva poderia cair e ricochetear, contaminada, para dentro da tigela. Colhi água direto do céu. Fui à cozinha e medi o seu pH.

Deu uma água de cor esverdeada, não chegando a azul. Em uma escala de zero a sete (ácida), sete (neutra) – e acima de sete (alcalina), a água da chuva deu, quando muito, um, pH de 6,2.

Diferente do inseto, que só enxerga para os lados e não olha para cima ou para baixo, e que morre afogado sem saber de onde veio a água que se abateu sobre ele, é preciso estudar o que nos ocorre. Pelo menos, na maioria das vezes, apesar de algum infortúnio, podemos ter dois prazeres. Um deles é sobreviver. Outro é transcender a mera sobrevivência e transformar em objeto de análise aquilo que tenta nos subjugar.

É assim que podemos dizer que estamos vivos.

 

Ana Parreira – Campinas, SP –  11 de março de 2016

Autora de

Tango Para os Lobos – Cantos proibidos de uma Aspie, e

Gente Asperger

Informações disponíveis de como adquirir – e LER – por e-mail: villa.aspie@gmail.com

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São sete horas da manhã e começo o dia, felizmente, pensando na conversa que tive com meu amigo Stephen Shore, ontem à noite. A esta altura, com o sol clareando, e na pressa, tomei um café ainda aquecido da tarde anterior, com um pão na chapa e manteiga Leco, sem sal (coloco sal light, com 60% menos teor de sódio), que fica fora da geladeira apenas o tempo suficiente, pois se liquidifica em cinco minutos sob o calor intenso que tem feito nesta terra de príncipes e princesas. “São todos príncipes se os ouço e me falam”, me lembra Fernando Pessoa. E mais ainda quando não falam, eu diria. Mas que ninguém se sinta endereçado. Essa tendência é menos original, e muito mais comum, do que cada um, com seus botões, imagina. É um vírus disseminado e sem controle, adotado como providencialmente correto.
Também, antes das sete, já havia limpado a mesa do computador, dando batidinhas no teclado, de cabeça para baixo (o teclado, é claro), para retirar as cinzas de cigarro de ontem, quando era muito tarde e fui dormir com a cabeça cheia de borboletas: finalmente, havia confirmado uma suspeita que trazia comigo há anos sobre o que de fato teria ocorrido entre Kanner e Hans Asperger. Também graças às trocas de idéias, por telefone, com minha amiga Inês Dias e sua generosa e silenciosa experiência no universo do autismo.
Stephen é um cara delicado, que não deixa o Facebook quando abro uma janela para falar-lhe, o que por aqui é costume. A bem da verdade, também não padecem desse hábito outros amigos como Adam, Benni, Debra, Gordon, Leo, Michael, Wendy, ou Yvonne – e, infelizmente, estou me esquecendo de alguns. Coloco-os aqui em ordem alfabética, uma das minhas “obsessões” favoritas, e dane-se o gambá com a nossa lista de “impairments”.
O denominador comum: todos estes são Aspergers ou autistas, cada um em um país que não este. Todos são autores de (ótimos) livros e alguns são PhD. Não posso adquirir todos os seus livros. Pergunto a Stephen se ele pode me mandar os livros dele, meio constrangida, pois é um autor e tanto e essas coisas não se pedem. Um de seus livros é justamente Autism For Dummies, em parceria com Linda Rastelli e prefácio de Temple Grandin. Stephen, para minha alegria, promete enviá-los. Combinamos que se o seu editor permitir, serei sua tradutora para o português. Foi-me apresentado por amigos de Fortaleza, que o conhecem pessoalmente, pois Stephen adora vir ao Brasil.
Assim, eu que às vezes não tenho como viajar nem pra Caconde, de algum jeito viajo pra Pasárgada e, com isso, quando assusto, consegui reunir a minha “comunidade autista internacional” e, aos poucos, todos os dias, vou formando uma ideia de como sobreviver no mundo enquanto Asperger, bebendo nas melhores fontes. Sendo que um autor puxa outro.
Eu tinha jurado pra mim mesma que não escreveria um livro “sobre” Aspergers. A produção de livros excelentes, muitos aqui desconhecidos, sobre Asperger e autismo ultrapassou, imagine, a linha do infinito. Mas catarse é catarse. Acabei parando tudo porque algo estava involuntariamente em gestação. Estou escrevendo um livro que é mais ou menos um docudrama. Acho que, no fundo, estou mesmo é procurando responder às minhas próprias perguntas, ao meu próprio espanto, do que deixar respostas e receitas. Então, o livro terá um pouco de tudo.
Para o antecipado olhar crítico de uns, terá muitas histórias que até hoje foram mal contadas, ou nem foram contadas – o que lhes dará um self-service de coisas a contestar. Para desespero de outros, principalmente alguns doutores, terá pitadas de poesia. O que lhes dará momentos de agonia e êxtase, enquanto dizem “Bah!”. Para o leitor curioso, para mães de Aspergers e autistas, terá o meu respeito e, quem sabe, dicas que lhes sejam úteis. Mas, em tudo, meu livro se propõe a ser apenas um ponto de partida. Nem sei se vou dar conta do recado. Sei que Stephen, por exemplo, já o está esperando pra ler. Isso é uma responsabilidade, me assusta.
Mas vou ter que saltar do trampolim, com medo e tudo. O livro fica pronto, talvez, em uns três meses. Desde o ano passado estou escrevendo e há mais de ano colhendo dados e fatos reais, inclusive do nosso cotidiano.
Quem tiver intenção de adquirir o livro para ler, vou fazer uma pré-venda. Nem sei como fazer uma pré-venda. Por isso peço que se você estiver interessado, me mande um e-mail sem falta. Vou deixar seu nome numa pasta e aviso quando estiver pronto. Já tem nome, capa, tudo, tem até Bettlheim, esse execrado, pois eu gosto de puxar o fio da meada de coisas ditas de boca em boca. Quis saber quem, afinal, saiu com essa história de mãe geladeira e descobri que papagaio come milho… Por falar nisso, o livro tem episódios recentes também, alguns de como e por que tipo de gente (principalmente por psicopatas) os Aspergers são perseguidos – e como se defendem. Prato cheio. E pitadas do Oriente. E o que, pergunta um, tem o Oriente a ver com o autismo? Saberá.
Agora são nove e meia da manhã, quando termino este post.
Enfim, quem vai querer? Pode levantar o mouse aqui, mas se for de verdade, mande um e-mail para villa.aspie@gmail.com.
Um abraço
A autora

Como são feitas as novelas?
Há algum tempo não tenho escrito no blog. E nem posso declinar aqui os motivos. Entendi que tudo o que eu tenha a dizer sobre Asperger, sobre autismo e todos os episódios e situações vividos nesse universo deva ser contado de uma vez no livro que estou escrevendo. Espero terminá-lo ainda este ano, se conseguir, porque algumas memórias doem. Outras vezes porque eu demoro no ofício de escrever: penso muito, releio, pesquiso, converso com pessoas. Assim que estou cozinhando esse livro em fogão de lenha: lentamente.
Mas um fato me fez parar hoje e escrever este artigo. Foi a questão da novela Amor à Vida (sic), que veio com a promessa de mostrar a personagem principal como uma pessoa no espectro do autismo.

A novela Amor à Vida
Não assisto à novela, mas fui conferir na Internet alguns capítulos onde Linda aparece, de tantos comentários recebidos ou lidos. Não vejo novelas de maneira geral, já que há mais de dez anos decidi não ver – e nem tenho mais – televisão. Desde então, e como sou cinéfila, assisto a um filme por dia.
Mas a expectativa gerada pela novela, antes de sua estréia, e a minha experiência nos cursos de roteiro dados por pessoal da Globo, que me mostraram como são escritas as novelas, me fizeram buscar contato com a produção. Era uma tentativa desesperada de reverter uma situação nada difícil de prever, ou seja: a novela não iria mostrar uma pessoa autista de verdade. Nem remotamente, em se tratando de “ficção”. A novela não viria para defender a causa do autismo. As demais personagens ao redor da personagem principal não iriam refletir o que é uma família envolvida com um caso de autismo. Pelo menos, eu tentei. Sei que outros também tentaram.

O contato com a Globo
Quem me respondeu foi alguém ligado à produção, que, em tese, teria passado “todas as informações” sobre como é uma pessoa autista. Disse-me que a novela iria mostrar uma moça Asperger. Estranhei (mais do que já havia feito), pois não seria possível que uma única pessoa, um homem, ainda que aparentemente no espectro, saber, afinal, como é uma mulher na condição de Asperger. Se nós, aqui no Brasil, mal conhecemos a síndrome no sexo masculino, que é dita, por enquanto, ser a mais prevalente entre os dois sexos.
A síndrome de Asperger entre as mulheres é ainda tão misteriosa por aqui, que até mesmo nós (eu inclusive), que vivemos a condição de Asperger, sabemos ou temos espaço para explicar como funciona, o que acarreta, em que nos diferenciamos dos Aspergers homens, as nossas dificuldades, os desafios, enfim, o que é ser Asperger no sexo feminino.
Portanto, uma moça com síndrome de Asperger, ou uma moça com autismo clássico, não poderia ser contada por um único consultor – e do sexo masculino. Mas, enfim, foi com isso que a produção da Globo se contentou, apesar dos infinitos recursos que tem, no sentido de fazer um laboratório com a atriz que faria o papel de Linda. Que, com o desenrolar da novela, começou a imitar… a Carley (menina autista).

Asperger ou autista?
Logo nos primeiros capítulos, vendo algumas cenas sem sentido, que já começavam a confundir o telespectador, fosse ele de alguma forma ligado ou não ao autismo, fiz novo contato com a mesma criatura, quando perguntei: “Mas, afinal, a Linda é uma autista, uma Asperger, ou o quê?”
A resposta que eu obtive, uma resposta resignada e parecendo bastante afinada com a produção, posição inusitada para um Asperger (que normalmente não aceita situações ambíguas), foi:
“Depende. Ela está entre autista grave e Asperger. (sic) A produção é que vai decidir. (sic!) Conforme o rumo que tomar a audiência da novela, eles vão modificando a personagem.” (sic!!!)
O mesmo que o homem do tempo dizer: O tempo? Depende. Pode vir uma grande tempestade ou podemos ter um tempo estável. Conforme as pessoas quiserem que seja.
Claro. Parte da confusão começa neste ponto. A Rede Globo não iria se preocupar em dar capacitação ao pessoal envolvido com a novela, desde atores até o pessoal da produção. Eu disse capacitação, e não pinceladas. Mas a novela ainda tem outros componentes, que fazem dela o que ela é: um prato de lagosta misturada com macarrão e rabanada. Uma história sem pé nem cabeça, em geral, a partir do décimo capítulo (quando o roteirista começa a se perder).

A revolta dos pais de autistas e dos Aspergers e autistas adultos
Todos se manifestaram. Alguns, dizendo que valia a pena falar de autismo, ainda que mostrassem tudo errado. Outros entenderam que falar de autismo da forma tão caótica, contraditória e deturpada, incluindo-se aí as reações da família de Linda, as “sessões de terapia”, o namorado salvador, tudo isso contribuía de forma negativa para que o autismo fosse mais desconhecido e mal interpretado do que já é.
Assim, vejo muita gente desapontada, e com justa razão, com os rumos que a personagem Linda tomou, bem como os demais personagens em torno de Linda e da questão do autismo.
Desapontados com justa razão, porém com a expectativa muito alta, se assim se pode dizer, enganados pela propaganda da novela e por não conhecer de roteiros, que, afinal, não é obrigação de nenhum telespectador.
Tentei avisar. Previa a angústia que se seguiria quando a novela fosse apresentada. Dizem (e o engano continua) que Aspergers não têm empatia, quando é bem o contrário. Senti, logo no início, que não queria ver tantas pessoas e tantos amigos grudados na telinha, iludidos, esperando “o milagre”.
Postei em vários grupos do Facebook o mesmo comentário, que poucos leram ou consideraram: ali eu reproduzi a conversa que tive com o consultor contratado pela Globo. Mas meu aviso não fez sequer cócegas no pensamento de alguém.

Como é feita a novela?
Então, imaginando que prestem alguma atenção a esta postagem e que tenham lido até aqui, vou explicar como é feita uma novela. De maneira bem geral, na Globo, funciona assim:
1. Primeira etapa. O tema da novela é escolhido em função da audiência das novelas anteriores. A Globo perdeu pontos? Vamos ver o que podemos trazer para captar a atenção de mais telespectadores. Aí, alguém surge com um tema interessante. O autismo, por exemplo. Algo que está começando a atrair os olhos das pessoas somente agora, mas enfim, agora. Vamos de autismo, então! Quantas pessoas a mídia diz que estão envolvidas? Dois milhões? Que ótimo. Um número bem significativo para se começar uma história.
2. Segunda etapa. Na Globo, se isso mudou eu não sei, mas toda novela é “baseada” em alguma das tramas de Shakespeare e deve ter seus principais componentes como personagens principais. Romeu e Julieta, por exemplo.
Desnecessário dizer que ninguém ali leu Shakespeare – e nem é o caso. Basta que saibam o resumo do resumo do resumo da história – e isso a Globo tem nos registros de roteiros. Que, basicamente, contém um herói, um vilão, um santo, um “atrapalhador”, um grupo de pessoas e um local onde as coisas se passam.
Além dos personagens principais, há os personagens secundários, que em geral são estereótipos (personagens que não têm conflito – são sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, chova ou faça sol na história).
Há em seguida os figurantes, que passam no fundo, o garçom que serve um café, um pé aparecendo, pessoas andando na rua, ao longe, por exemplo).
3. Terceira etapa. Há dois ou três personagens principais, assim como há outras histórias correm em paralelo para dar movimento à história, e eles são divididos em núcleos. Há, portanto, o “núcleo da Linda”: a própria Linda e pessoas ligadas mais diretamente a ela. Há outros núcleos e neste caso, como não vejo a novela, não saberei nomear. Mas, suponhamos, pode haver um núcleo do namorado da Linda: a família e os amigos dele, a casa dele etc. E outros ainda.
4. Quarta etapa. O roteirista encarregado, em geral, possui uma equipe. Ele não daria conta de escrever sozinho o dia-a-dia de todos os personagens. Assim, cada equipe, em geral de roteiristas novatos, e sem muita experiência de vida, pela pouca idade, fica encarregada de desenvolver um núcleo. Isso quer dizer, escrever um mini-roteiro por dia e tudo muito rápido, semanas antes daquela cena ir ao ar, pois os atores precisam ensaiar ou pelo menos ler o roteiro.
5. Etapa cinco. O caos completo. Imagine cada grupo escrevendo, em separado, a história de um núcleo, sem conexão uma história com a outra. Bem como a história de cada personagem principal, sem o tempo devido para os roteiristas anônimos (só o principal aparece) se comunicarem entre si como deveriam. Em poucos capítulos, a novela se transformou numa Torre de Babel, com personagens se chocando uns com os outros na história. Por exemplo, cenas da terapia de Linda precisam ser enxugadas, pois, suponhamos, o ator que faz o terapeuta teve uma indisposição e não pode gravar naquela semana. Ou porque outros personagens precisam aparecer mais, se ainda não gravaram. A história de Carley surge na mídia e alguém se lembra de “aproveitar o gancho” e escrever uma cena para Linda. Pronto, uma Asperger vira uma autista. No dia seguinte, ela é Asperger outra vez, se outra situação parecida ocorreu.
Enfim, considero a novela, tal como é feita, de improviso, como um compasso com seu eixo fincado de maneira frouxa. Sem poder traçar um círculo perfeito, traduzindo, sem poder delinear um personagem coerente.
A questão do autismo, para a Globo? Vai bem, obrigado. Pois todo mundo, do universo autista ou fora dele, contra ou a favor, está como a Globo queria: com os olhos grudados na telinha, seja para aplaudir, para “aprender”, para se reconhecer na história ou não, ou simplesmente porque é hora da novela – e ela está falando de autismo.
Portanto, tudo o que a emissora quer é a sua audiência.
Considero isso o mais sórdido dos negócios: aquele que lida, de maneira leviana e inconsequente, com a Esperança das pessoas.
*******************

Agora, cá entre nós, os únicos interessados. Nós precisamos ir muito além de “falar de autismo”.
Também precisamos, com urgência, falar com os autistas.
Nada sobre nós sem nós. Os autistas agradecem.
Essa novela, para ter sido minimamente verossímil, com mais dados de realidade, teria que ser feita, dirigida, produzida e alimentada por diferentes pessoas autistas e com atores autistas no núcleo central.
E pela qualidade que teria, então, a novela, os autistas empregados bem poderiam estar ganhando remuneração dobrada.
Nem mais, nem menos.
Mas isso, aqui, nos tempos de hoje, talvez seja o mesmo que falar da ficção da ficção.

Ana Parreira
Campinas, 29 de janeiro de 2014
Contato: villa.aspie@gmail.com

Para saber mais, veja um artigo muito bom de Cyntia Beltrão:
http://femmaterna.com.br/autismo-protecao-e-autonomia/

Tenho para mim que um ego assustadoramente grande impede aquele que o possui de ver a real grandeza de si mesmo enquanto pessoa. Do mesmo modo que um ego demasiadamente pequeno também ofusca a real visão de seu possuidor.
Nem o que tem enorme ego nem o que o tem diminuto podem gozar de autoestima.
A autoestima não é ter um ego gigante, tolo e estouvado, mas sim, é o equilíbrio entre grandeza e humildade na medida exata: somos grandes e somos pequenos – isso é o que nos faz humanos.
O ego inflado nos torna seres meramente emocionais (suponhamos que, a grosso modo, seja assim no espectro neurotípico): assim, tendemos a ter como amigos somente aqueles que nos elogiam e nos adulam (nos manipulam). E nos afastamos, e mesmo nos irritamos, com quem nos tenha verdadeira amizade e nos avise das coisas como elas são, porque não nos quer cegos.
O ego inflado, que poderia ser chamado de Grande Ego, é um dragão voraz, que precisa ser alimentado todos os dias e não se sacia nunca. Ele vê a floresta, é emocional, superficial e apressado.
Por sua vez, o ego diminuto , solapado ou encolhido, o Pequeno Ego, é igualmente prejudicial ao nosso estado de ser. Ele é racional (suponhamos que, a grosso modo, seja assim no espectro autista) e leva em conta minúcias, considera toda e qualquer opinião, sendo às vezes tomado por todas elas. Ele se perde nos detalhes e deixa de ver a floresta, daí a lentidão em tomar decisões e em sobreviver.
Uma pessoa pode se considerar um nada, quando de fato tem valores que desconhece. E isso vale para os egos grandes e pequenos.
Daí ser possível entender que o exercício do autoconhecimento seja árduo, porém possível e necessário. Só ele conduz à autoestima.
Nesse processo, nós sofreremos vários enganos – mesmo assim, precisamos continuar seguindo.
E a autoestima (que inclui, ao mesmo tempo, as nossas grandezas e pequenezas) é a chave, é o Caminho do Meio.

Ana Parreira – (trecho brainstorm de livro em andamento, aberto a críticas de preferência honestas, elegantes e esforçadas)
Nos vemos dia 9 de novembro em São Carlos, no Módulo I do curso Aspergers em Sintonia.
Informações com yonepalma59@gmail.com.

POEMA EM LINHA RETA

Veja aqui o poema original, escrito por Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Veja a história do poeta português e leia outros poemas dele… fico pensando, será que ele era um Asperger?
E, ao final, assista ao vídeo onde Osmar Prado dá um show, recitando o poema que, na novela O Clone, foi adaptado.
Uma vez em mil, as novelas trazem algo magistral como este momento.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

DIAGNÓSTICO: A VOLTA PARA CASA

por Ana Parreira

Transpondo um portal
Até um ano atrás, eu não pensava em fazer avaliações para diagnóstico da síndrome de Asperger. Todo meu tempo era ocupado para entender a condição de Asperger em mim mesma, em meu filho e nas pessoas Aspergers que tenho contato, aqui e fora. Era um tempo que eu precisava para me deveras me conhecer e pôr algumas coisas no lugar. Até aí, eu me permitia apenas divulgar o conhecimento da síndrome e do universo Aspie, a fim de que o a sociedade se tornasse um tanto mais aberta para a nossa existência e para o convívio com as pessoas Aspergers.
Como essa descoberta se deu comigo na idade adulta e provocou uma série de transformações em cascata, tudo, então, a partir do diagnóstico confirmado, começou a fazer sentido: tanto as conquistas como os fracassos. De repente, eu deixei de ser apenas uma árvore para, ao mesmo tempo, ver que tipo de árvore eu era, observar as outras árvores em volta e observar a floresta como um todo. Acho que é Brecht quem diz que: “Para entender a floresta é preciso sair de dentro dela.”
Em geral, as pessoas autistas veem as árvores e os neurotípicos veem a floresta. Mas quando acontece uma autodescoberta, passa a ser possível juntar as duas visões: a visão local, ensimesmada, individual – e a visão panorâmica, geral, coletiva.
Então eu senti que, sem perceber, acabava de transpor um portal. Como se fosse a etapa decisiva da individuação de que fala Jung. No alto do portal estava escrita uma palavra: Identidade.
Meu foco de estudos se voltou para essa fase da vida, a fase adulta, e encontrei pessoas nas mesmas condições (Aspergers), cada uma com uma personalidade e com um tipo de vida próprios, e todos com uma mesma sensação: alívio.
Ainda não encontrei um Asperger que se lamentasse por ser Asperger. Ao contrário: todos que conheci demonstram ter integrado essa condição em sua vida, com mais ganhos do que perdas. Todos, que eu digo, são os Aspergers já adultos. Eles têm em comum um sentimento de Aceitação.
Aspergers vêm sendo identificados como tais em número maior do que o esperado. Contando com as crianças e adolescentes no espectro do autismo, pode ser que não sejamos minoria, como hoje se acredita. Encontrei Aspergers desde jovens até oitenta e três anos.
Os mais velhos, em geral, depois do diagnóstico (que eu chamo de identificação), começam a puxar pela memória e encontram pessoas na família, como pais, avós, que já morreram e que também eram Aspergers. Estes experimentam um momento mágico, onde contas são resgatadas e acertos internos são feitos. Quando alguém se conhece a si mesmo, começa a se entender melhor com o mundo e, mesmo com toda turbulência do mundo, ele passa a sentir um razoável bem-estar.
A questão de atender pessoas para avaliação diagnóstica veio aos poucos. As pessoas que me procuram percorrem longas distâncias até chegar aqui, ficam três, quatro dias em um hotel, passam os dias inteiros mergulhadas, na busca de si mesmas, ajudando na sua própria “escavação”, sem demonstrar cansaço. É um trabalho em conjunto. Normalmente, eles já procuraram outros lugares. Eles não vêm em busca de um laudo, mas vêm em busca de confirmação para algo que já descobriram e querem ter certeza:
“Será que eu sou mesmo um Asperger?”
É como se fossem peregrinos, que chegam de uma longa jornada e perguntam:
“Será que eu estou, finalmente, no caminho de casa?”

A volta para casa
Voltar para casa é encontrar-se consigo mesmo.
Quando nascemos, estamos de bem conosco. Somos o que somos – e por isso não temos conflitos nem guerras internas.
Aos poucos, porém, percebemos que, no lugar em que acabamos de chegar, ser o que somos não basta. Então experimentamos a vida: olhares curiosos ou desatentos, gestos hostis, falas bizarras, ordens sem nexo, costumes que não nos confortam, acordos que não faríamos, ouvidos que não nos ouvem, costas voltadas, em vez de mãos estendidas.
E assim, para sobreviver, vamos, aos poucos, nos afastando de nós mesmos na tentativa de ser um Outro, qualquer Outro que seja, desde que agrade ou apazigue os que nos rodeiam.
Somos vistos com estranheza por olhos mais estranhos ainda – olhos que tudo perscrutam, mas que não nos enxergam. Para não sofrer enxovalhos, vestimos a capa cinza que nos dão, dizendo:
“Este deve ser o seu traje, porque é um traje mais adequado”.
E nos tornamos cinzentos, conformes, para satisfazer os outros à nossa volta.
E quando, enfim, nos deixam a sós em nosso quarto, regalia que nos permitem neste inusitado embate, logo tiramos a capa, nos sentamos ao nosso modo, sentimos a nossa pele, balançamos as mãos e os braços querendo voar e encontrar o nosso eu dividido.
Por sorte, possuímos algum objeto, uma pedra, um talismã, uma foto, uma lasca de madeira em que lançamos nossa energia represada – e consagramos esse objeto como sendo a nossa caixa de memórias, a nossa energia vital. E carregamos esse objeto para todo lado, ou o guardamos de olhares intrusos, num canto só nosso, para não nos perdermos de vez.
Por isso, quando me dizem, com olhar esperançoso, “Eu só queria saber se sou mesmo Asperger, isso é tudo.” – eu sei de que estão falando. Sim, isso é TUDO.
O diagnóstico é, ou pode ser, um momento de redenção. O grande reencontro. O reinício de tudo, agora por outros caminhos.
É o momento em que todas as ciências de fato, todas as ciências autoproclamadas e todas as regras sociais não são suficientes para nos impedir de recitar poemas, sim, poemas, como, por exemplo, o Poema Em Linha Reta, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). Talvez, ele mesmo um Asperger.
É a partir daí que colocamos uma placa na porta de casa, dizendo a frase de Eleanor Roosevelt:
“Ninguém pode me fazer me sentir miserável sem a minha permissão”.
Por isso mesmo, uma avaliação diagnóstica deve receber muita atenção e cuidado.

A chegada
O que é preciso

A partir da disposição de se deixar avaliar para se descobrir ou não como um Asperger, é preciso, em primeiro lugar, andar devagar e permitir que o rio corra sozinho.
É preciso não ter pressa. Para se avaliar uma vida inteira e o que mais possa vir pela frente, não bastam duas horas. Não bastam os “sintomas”. E nem as “dificuldades”. Não basta resumir tudo a uma tríade de limitações descrita nos manuais médicos.
É preciso levar em conta o que já foi superado e integrar a pessoa em seu contexto, ah, o contexto. Toda uma história de vida.
É preciso desconstruir essa história de vida, olhar com uma lupa cada detalhe, cada momento, cada passagem, puxar o fio da meada, eliminar outras possibilidades, ir aos livros raros, ir e voltar, é preciso ouvir, ouvir e falar, é preciso serenidade, porque vamos evocar, nesse trajeto, os nossos deuses e os nossos demônios. Encarar as nossas habilidades e os nossos limites.
É preciso listar as perdas, avaliar os estragos, sem deixar de reconhecer as vitórias alcançadas.
É preciso o confronto consigo mesmo e, para isso, é preciso Coragem. Porque esse confronto é, de longe, a maior batalha que um homem tem a travar.
É preciso, a um só tempo, guiar e se deixar guiar, ouvir e ser ouvido, entrar por terrenos nunca explorados, é preciso exigir e aceitar um Olhar cuidadoso, não um Olhar distante, vago, casual.
É importante deixar que outros participem, trazer uma esposa, uma mãe, um irmão, um amigo ou um colega de trabalho, caso o trabalho exista. É preciso deixar que eles falem.
É preciso ouvir as dores, físicas ou existenciais, é preciso se valer de exames médicos, de questionários, é preciso investigar os sentimentos vários e perceber a sua presença no mundo, se até agora foi dolorida ou teve momentos bons.
Idealmente, é preciso sair à rua com o seu avaliador, ir a uma loja, escolher uma comida, parar para um café e se deixar ser naturalmente observado.
É preciso falar das trocas, dos cheiros, do banco de escola, dos interesses, dos sonhos perdidos, do tecido que arranha, das luzes, dos sons, dos gestos e da ausência deles. Tudo isso é o contexto.
É preciso traçar a planta de uma casa que foi construída sem que até hoje essa planta estivesse à mão. Entrar pelas janelas, abrir as portas dos quartos, inclusive a porta que dá para o quarto escuro.
O diagnóstico é o “Habite-se”. É o aval para encontrar e habitar o seu eu verdadeiro.
Essa é uma jornada que não se faz sozinho, embora também seja possível.
Então, e só então, se o diagnóstico se confirma, vale a pena celebrar: ser Asperger não é uma tragédia nem é uma condição de que se orgulhe simplesmente.
Ninguém que se arvore em dar diagnóstico a um(a) asperger pode fazê-lo com precisão se não aprender a pensar como um. A tríade de “impairments” é pouco para nos definir. As “dificuldades” ou “limitações” não nos definem. Uma pessoa asperger é muito mais que isso. É preciso avaliar as qualidades especiais também. O caminho para se avaliar um asperger passa pela empatia, pela curiosidade solidária (não invasiva) e pelo respeito.
Por princípio, eu não respondo questionários para teses, se me pedem – e já aconteceu duas vezes. Fico confusa porque não sei como responder a pessoas que abordam aspergers com essa intenção. De pronto, vê-se um distanciamento. E à distância não se pode conhecer nada ou ninguém. Pessoas que veem um asperger como um “paciente” nunca saberão quem é de fato um asperger, se não partirem do ponto de que aspergers são, acima de tudo, seus iguais. Às vezes, com alguns pontos de evolução à frente do seu tempo. Difícil para uma pessoa típica entender isso, mas não impossível.
E diagnóstico não é sentença. É o reconhecimento de um estado de ser – e é a oportunidade para um recomeço.
Nessa empreitada, tenho encontrado pessoas que, quando confirmada a sua condição de asperger, se emocionam e choram.
Elas só queriam saber, afinal, quem são.

Ana P.
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Quote:
Homem, conhece-te a ti mesmo.
Sócrates

Música para o texto:
TOCANDO EM FRENTE
Almir Sater

Acompanhe o próximo post a ser publicado, em continuação deste:
TODOS OS DIAS SÃO MEUS (em breve)

Autor: George Orwell

1
Em Moulmein, na Baixa Birmânia, eu era detestado por um grande número de pessoas – a única vez na vida que fui importante o suficiente para isso acontecer comigo. Eu era policial de subdivisão na cidade e, de maneira mesquinha e aleatória, o sentimento antieuropeu era bastante acrimonioso. Ninguém tinha coragem de se amotinar, mas, se uma mulher europeia andasse pelos bazares, sozinha, alguém provavelmente lhe cuspiria suco de bétel no vestido.
Como policial, eu era um alvo óbvio, importunado toda vez que podiam fazer isso com segurança. Quando um ágil birmanês me passou uma rasteira no campo de futebol e o juiz (outro birmanês) desviou o olhar, a multidão explodiu numa gargalhada revoltante. Isso aconteceu mais de uma vez.
No fim, os rostos amarelos e sarcásticos dos jovens que me encaravam em toda parte, os insultos que gritavam para mim quando eu me achava a uma distância segura, tudo me dava nos nervos. Os jovens sacerdotes budistas eram os piores. Havia milhares deles na cidade e davam a impressão de que nada tinham a fazer a não ser ficar parados nas esquinas, zombando dos europeus.

2
Tudo isso era desconcertante e perturbador porque, naquela época, eu já tinha concluído que o imperialismo era algo maligno e que quanto antes eu renunciasse ao emprego e saísse dali, tanto melhor. Na teoria – e, claro, no íntimo – eu era a favor dos bimaneses e contra os opressores, os britânicos.
Quanto ao trabalho, eu o detestava mais profundamente do que talvez seja capaz de expressar. Os infelizes prisioneiros que se comprimiam nas fétidas celas das prisões, os rostos pardos e assustados dos condenados a longo prazo, os traseiros marcados com cicatrizes dos homens açoitados com bambus – tudo isso me oprimia com uma sensação de culpa insuportável.
Mas eu não conseguia ver as coisas com clareza. Era jovem, mal informado e tinha que pensar em meus problemas, no silêncio total imposto a todo inglês no Oriente. Nem sequer sabia que o Império Britânico estava agonizando, muito menos que era bem melhor do que impérios mais recentes que caminhavam para substituí-lo.
Sabia apenas que estava empatado entre o ódio pelo império que eu servia e minha ira contra os brutos perversos que tentavam tornar meu trabalho impossível. Com um lado da cabeça, eu pensava que a soberania britânica era uma tirania inquebrantável, algo imposto, in saecula saeculorum, contra a vontade dos povos humilhados; com o outro lado, pensava que o maior prazer do mundo seria enterrar uma baioneta nas entranhas dos sacerdotes budistas.
Sentimentos como esses são consequências normais do imperialismo; pergunte a qualquer oficial anglo-indiano, se encontrar um de folga.

3
Um dia, aconteceu uma coisa que, de maneira indireta, foi reveladora. Um incidente insignificante, mas que me deu uma ideia melhor da verdadeira natureza do imperialismo – dos verdadeiros motivos pelos quais governos despóticos agem.
Numa manhã, bem cedinho, o sub-inspetor de uma delegacia do outro lado da cidade me telefonou para dizer que um elefante estava a destruir um bazar. Poderia eu ir até lá e fazer alguma coisa? Eu não sabia o que poderia fazer, mas, querendo verificar o que ocorria, montei num pônei e rumei para lá. Levei comigo meu fuzil, um velho Winchester calibre quarenta e quatro, muito pequeno para matar um elefante, mas achei que o barulho seria útil in terrorem.
Vários birmaneses me pararam no caminho e me contaram sobre as ações do elefante. Não era, claro, um elefante selvagem, e sim, um elefante domesticado “enfurecido”. Tinha sido acorrentado, como sempre ocorre com elefantes domesticados quando estão prestes a se enfurecer, porém, na noite anterior, arrebentara as correntes e escapara.
Seu condutor, a única pessoa capaz de dominá-lo naquele estado, saíra em sua busca, mas havia seguido na direção errada e agora se achava a uma distância de doze horas de jornada – e, de manhã, o elefante reaparecera de repente na cidade.
A população birmanesa não possuía armas e estava indefesa. Ele já havia destruído uma choupana de bambu, matado uma vaca, atacado uma barraca de frutas e devorado todo o seu estoque; havia ainda topado com a caminhonete coletora de lixo e, depois de o motorista saltar para fora e sair correndo, tombara a caminhonete e a golpeara com violência.

4
O sub-inspetor birmanês e alguns guardas indianos me esperavam no bairro em que o elefante fora visto. Era um bairro bastante pobre, um labirinto de choupanas miseráveis de bambu, cobertas com folhas de palmeira, que serpenteavam numa encosta íngreme. Lembro-me que era uma manhã saturada de nuvens, no princípio das chuvas.
Começamos a perguntar às pessoas para onde o elefante havia ido – e, como de costume, não obtivemos nenhuma informação clara. Isso é o que invariavelmente ocorre no Oriente; uma história sempre parece clara à distância, mas, quanto mais nos aproximamos do lugar dos acontecimentos, mais vaga ela vai ficando.
Algumas pessoas disseram que o elefante havia ido numa direção, outras disseram que havia ido em outra, algumas afirmaram não ter sequer ouvido falar de um elefante. Eu estava quase chegando à conclusão de que a história toda não passava de uma grande mentira, quando ouvimos gritos não muito longe dali.
Soou um berro escandalizado e alto de “Saia daqui, menino! Vá embora já!” – e uma velha de chicote na mão surgiu dando a volta no canto de uma choupana, a enxotar, furiosa, um bando de crianças sem roupa. Outras mulheres apareceram, estalando a língua e vociferando; sem dúvida, havia alguma coisa lá que as crianças não deveriam ver.
Dei a volta no canto da choupana e vi o corpo de um homem morto estendido no barro. Era um indiano, um cule dravidiano pardo, quase nu, morto não mais do que alguns minutos antes. As pessoas disseram que o elefante o atacara de surpresa no canto da choupana, pegara-o com a tromba, pusera a pata sobre suas costas e o prensara contra o chão.
Era a estação das chuvas, a terra estava fofa e o rosto dele abrira uma vala de uns trinta centímetros de profundidade – e o corpo, uma de uns dois metros de comprimento. Estava de bruços, com os braços abertos, a cabeça bruscamente virada para o lado. O rosto estava coberto de barro, os olhos arregalados, os dentes arreganhados, com uma expressão de agonia insuportável.
(A propósito, nunca me diga que um morto parecia tranquilo. A maioria dos cadáveres que vi parecia diabólica.) A fricção da pata do enorme animal arrancara a pele das costas do homem de maneira tão perfeita, como se tira a pele de um coelho.
Assim que vi o morto, mandei um ordenança à casa de um amigo para tomar emprestado um fuzil capaz de abater um elefante. Eu já tinha enviado o pônei de volta, por não querer que enlouquecesse de medo e me derrubasse, caso farejasse o elefante.

5
O ordenança voltou dali a alguns minutos com um fuzil e cinco cartuchos. Nesse ínterim, alguns birmaneses haviam chegado, contando-nos que o elefante estava nos arrozais, a apenas uns cem metros dali.
Quando comecei a caminhar, praticamente todos os habitantes do bairro saíram aos bandos das casas e me seguiram num tropel danado. Tinham visto o fuzil e, excitados, seguiam, aos gritos de que eu iria matar o elefante. Não tinham mostrado grande interesse no elefante quando este se limitava a arrasar os lugares e suas casas, mas agora era diferente, pois ele iria ser morto a tiros. Eles teriam um pouco de diversão, assim como seria para uma multidão inglesa; além disso, queriam a carne.
Isso me deixou vagamente perturbado. Eu não tinha intenção de atirar no elefante – trouxera o fuzil simplesmente para me defender, se necessário – e é sempre enervante ter uma multidão seguindo você.
Enfiei-me colina abaixo, observando e me sentindo um tolo, com o fuzil nos meus ombros e um exército cada vez maior de pessoas se amontoando nos meus calcanhares. Lá em baixo, quando as choupanas já haviam ficado para trás, havia uma reluzente estrada de pedras e, além dela, um arrozal lodoso e abandonado, de quase um quilômetro de extensão, ainda sem ser arado, mas encharcado das primeiras chuvas e povoado de ervas daninhas.
O elefante estava a umas oito jardas da estrada, com seu flanco esquerdo voltado para nós.
Ele não deu a mínima para a chegada da multidão. Arrancava montes de ervas, batendo-as no joelho para limpá-las e enfiando-as na boca.

6
Eu hesitei no caminho. Assim que vi o elefante, soube, com uma certeza perfeita, que não devia atirar nele. É uma questão séria atirar num elefante de utilidade – algo comparável com destruir uma máquina grande e cara – e, obviamente, não era certo fazer o que seria possível evitar. Ainda por cima, a alimentar-se pacificamente, àquela distância, o elefante não parecia mais perigoso do que uma vaca.
Pensei, então – e ainda penso -, que esse seu ataque de “precisão” já estava passando; caso em que ele iria somente vaguear sem grandes danos até que seu tratador voltasse e o levasse.
Além do mais, eu não queria, no fim, atirar nele. Decidi que iria olhá-lo por um momento, para ter certeza de que ele não se tornaria furioso novamente – e, daí, eu iria para casa.

7
Mas, naquele momento, dei uma olhada em torno da multidão que havia me seguido. Era uma turba imensa, uns dois mil pelo menos, e crescia a cada minuto. Bloqueava a estrada por uma longa distância, dos dois lados.
Olhei o mar de rostos amarelos por sobre os trajes bizarros – suas faces tão felizes e excitadas com esse naco de entretenimento, todos certos de que o elefante ia ser baleado. Olhavam-me como se olha um mágico prestes a fazer um truque. Eles não gostavam de mim, mas, com o fuzil mágico nas mãos, eu era, por um momento, algo que valia a pena ver.
E, de repente, me dei conta de que, afinal, teria que atirar no elefante. As pessoas esperavam isso de mim e eu tinha que fazer; eu sentia aqueles dois mil desejos me empurrando de forma irresistível.
E foi nesse momento, em que eu parei ali com o fuzil nas mãos, que captei pela primeira vez o vazio, a futilidade do domínio do homem branco no Oriente. Ali estava eu, o homem branco com seu fuzil, diante da multidão desarmada de nativos – como um protagonista de uma peça; mas, na realidade, eu era uma marionete absurda manipulada pela vontade daqueles rostos amarelos atrás de mim.
Percebi, naquele instante, que quando o homem branco se torna tirano, é a sua própria liberdade que ele destrói. Ele se torna uma espécie de boneco, oco e afetado, a figura estereotipada de um sahib. Pois tal é a condição de seu governo que ele passará a vida toda tentando impressionar os “nativos” e, assim, a cada crise, ele terá de fazer o que os “nativos” esperam dele. Ele enverga uma máscara – e seu rosto tem que se moldar dentro dela.
Eu tinha que balear o elefante. Havia me comprometido comigo mesmo fazer isso, quando mandei buscar o fuzil. Um sahib tem que agir como um sahib; tem que parecer decidido, conhecer sua própria mente e ter atitudes definidas. Ter percorrido todo esse caminho com o fuzil nas mãos, duas mil pessoas marchando nos meus calcanhares e depois sair-me dessa sem mais, sem fazer nada – não, isso era impossível. A multidão iria rir-se de mim.
E a minha vida toda, a vida de cada homem branco no Oriente, era um esforço imenso para evitar esse riso.

8
Mas eu não desejava atirar no elefante. Olhava-o batendo os feixes de capim contra os joelhos, com aquele ar de avó preocupada que os elefantes têm. A mim, parecia-me um assassínio abatê-lo. Naquela idade, eu não tinha escrúpulos em matar animais, porém nunca havia abatido um elefante e nunca desejara.
(De certa forma, sempre parece pior matar um animal grande.)
Além disso, havia que levar em consideração o dono do animal. Vivo, o elefante valia no mínimo cem libras esterlinas; morto, teria apenas o valor das presas – cinco libras esterlinas, talvez.
Contudo, eu precisava agir rápido. Virei-me para uns birmaneses aparentemente experientes que estavam lá quando cheguei e perguntei como o elefante havia se comportado. Todos disseram a mesma coisa: ele não prestaria atenção na gente se o deixássemos em paz, mas atacaria se chegássemos muito perto.

9
Ficou bastante claro para mim o que eu deveria fazer. Deveria me aproximar do elefante e pôr à prova seu comportamento. Se atacasse eu poderia atirar. Se não prestasse atenção em mim, seria seguro deixá-lo até que o condutor voltasse.
Porém eu também sabia que não faria isso. Era pouco hábil com um fuzil – e o chão era de um barro mole em que se afundava a cada passo. Se o elefante atacasse e eu errasse o alvo, teria a mesma chance de escapar que a de um sapo sob um rolo compressor.
Mesmo assim, não pensava na minha pele em especial, somente nos rostos amarelos atentos, atrás de mim. Porque, naquele momento, com a multidão a me observar, não sentia um medo comum, como sentiria se estivesse sozinho. Um branco não deve demonstrar medo na frente dos “nativos”; e assim, em geral, não tem medo. O único pensamento em minha cabeça era que, se algo desse errado, aqueles dois mil birmaneses me veriam perseguido, pego, esmagado e reduzido a um cadáver de dentes arreganhados como aquele indiano no topo da colina.
E, se isso ocorresse, seria bem provável que alguns deles rissem. Isso não poderia ser.

10
Havia apenas uma alternativa. Meti os cartuchos no depósito do fuzil e me deitei na estrada para poder mirar melhor. A multidão se imobilizou e inúmeras gargantas soltaram um suspiro profundo, baixo e feliz, como de pessoas que vêem a cortina do teatro enfim se erguer. Teriam, afinal, um pouco de diversão.
O fuzil era um belo objeto alemão com um ponto de mira de retículo de fios cruzados. Naquele momento, eu não sabia que, ao abater um elefante, se deve atirar para cortar uma barra imaginária que vai de um ouvido a outro. Deveria, portanto, uma vez que o elefante estava de lado, ter mirado o ouvido; na verdade, mirei vários centímetros à frente dele, achando que o cérebro estaria mais adiante.

11
Quando puxei o gatilho, não ouvi o estrondo nem senti o coice – nunca se sente quando se atinge o alvo -, mas ouvi o barulho infernal de alegria que estourou da multidão.
Naquele instante, num espaço de tempo bem curto, mesmo para um projétil chegar lá, uma mudança terrível e misteriosa se deu no elefante. Ele não se agitou nem tombou, mas cada traço de seu corpo sofreu uma transformação. Parecia de repente ferido, contraído, extremamente velho, como se o espantoso impacto do projétil o tivesse paralisado sem derrubar. Por fim, depois do que pareceu muito tempo – devem ter sido uns cinco segundos -, ele cedeu, fraco, sobre os joelhos. A boca babou. Uma enorme senilidade pareceu tomar conta dele. Era possível imaginá-lo com mil anos de idade.
Atirei de novo, no mesmo ponto.
No segundo tiro, ele não caiu, mas se firmou com desesperada lentidão sobre as patas e se manteve em pé, combalido, as pernas fraquejando e a cabeça pendendo.
Atirei uma terceira vez. Foi o tiro de misericórdia. Era possível ver a agonia sacudir-lhe o corpo inteiro e arrancar-lhe das pernas o último resquício de força. Mas, ao tombar, pareceu por um momento que se levantava, porque, quando as pernas traseiras cederam, ele deu a impressão de se elevar como uma enorme pedra, a tromba erguendo-se em direção ao céu como uma árvore.
Ele barriu pela primeira e última vez. E, em seguida, caiu, a barriga voltada para mim, com um estrondo que pareceu estremecer até mesmo o chão em que eu estava deitado.

12
Levantei-me. Os birmaneses já passavam correndo pelo barro. Era evidente que o elefante jamais voltaria a erguer-se, mas não estava morto. Respirava de forma cadenciada, com longos arquejos estrondosos, o volumoso flanco a expandir-se e retrair dolorosamente. A boca estava escancarada – pude enxergar em seu interior cavernas de uma garganta rosa claro.
Esperei um longo tempo que ele morresse, mas a respiração não enfraquecia. Afinal, disparei os dois projéteis restantes no ponto em que pensei que o coração deveria estar. O sangue grosso jorrou dele como veludo vermelho e, ainda assim, ele não morreu. O corpo nem sequer se contraiu, quando os projéteis o atingiram, a respiração torturada prosseguiu sem uma pausa.
Estava morrendo muito devagar e numa grande agonia, porém em algum mundo distante de mim, em que nem mesmo um projétil poderia mais lhe fazer mal.
Senti que tinha de pôr um fim àquele barulho medonho. A mim, parecia horrendo ver um animal enorme deitado lá, sem forças para se mexer e, no entanto, sem forças para morrer, sem que eu fosse capaz de matá-lo.
Mandei buscar meu fuzil pequeno e despejei projétil atrás de projétil em seu coração e em sua garganta. Eles pareciam não ter efeito. Os arquejos torturados continuaram com a mesma regularidade de um ponteiro de relógio.

13
No fim, não consegui suportar mais e fui embora. Soube, depois, que levou meia hora para ele morrer. Os birmaneses chegaram com dah e cestas, antes mesmo de eu ir, e me contaram que, à tarde, tinham pelado o corpo quase até os ossos.

14
Depois, claro, ocorreram discussões intermináveis sobre o abate do elefante. O dono ficou furioso, mas era apenas um indiano e nada podia fazer. Além do mais, legalmente, eu fizera a coisa certa, pois um elefante enfurecido deve ser morto como um cão raivoso, se o dono não o controlar.
Entre os europeus, a opinião se dividiu. Os mais velhos disseram que eu estava certo; os mais jovens, que era uma lástima terrível abater um elefante por ele ter matado um cule, pois um elefante vale bem mais do que um maldito cule de Coringhee.
E, mais tarde, fiquei contente de que o cule estivesse morto; fornecia-me a razão legal e pretexto suficiente para que eu tivesse abatido o elefante.
Muitas vezes me perguntei se alguém percebeu que fiz o que fiz unicamente para evitar parecer um bobo.

(George Orwell)
New Writing, 1936, Penguin New Writing
Novembro de 1940

Postado por Ana Parreira
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Nota:
1. Este conto é o fio condutor do meu livro GENTE ASPERGER, que está saindo em novembro de 2015. O livro tem edição limitada – não está em livrarias e para ver como adquirir basta escrever para VILLA.ASPIE@GMAIL.COM.

2. Para quem não quer ler um texto “tão longo”, recomendo o blog do Chico Carvalho, onde ele postou o resumo em um áudio. Aqui, o áudio, infelizmente, não está funcionando talvez por alguma configuração do meu micro. Mas já ouvi muitas, muitas vezes. Esse é um dos mais importantes contos que já li e me fez e faz pensar todos os dias. Quem sabe você possa ouvir. O blog do Chico é http://chicoecarvalho.blogspot.com.br/2009/12/o-abate-de-um-elefante-george-orwell.html.